Por José de Alencar (1872)
Aí, à esquerda, no socalco do caminho, está a palhoça onde pousavam os colonos, que abriram o caminho do Jardim e deram nome ao sítio. Conhecido a princípio o lugar pela simples indicação de “Rancho dos chins”, a imaginação popular enlevada pela brilhante perspectiva, de lembrança fantasiava alguma das pinturas diáfanas e aveludadas que vira debuxadas em papel de arroz; e daí o nome de “Vista chiensa”.
XVII
Devorou Ricardo em completa disparada o lanço do caminho, até a garganta onde sumira o “Galgo” levando a moça, talvez já de rasto.
Ao entrar no estreito passo, ainda pôde ver de relance o vulto de Guida que passava como uma sobra, por defronte do bambuzal. Ferrando de novo as esporas em “Edgard” admirado daquela aspereza, o mancebo, sem perder a calma de que tanto precisava, fez um último esforço para alcançar o “Galgo”, cortar-lhe a dianteira, e evitar a desgraça iminente.
Mas nenhuma esperança tinha de o conseguir; bem conhecia seu cavalo, e avaliando do isabel pela amostra, via que não era ele para bater o corredor paulista, em condições iguais, quanto mais com tal partido.
O espaço desaparecia; e Ricardo via aproximar-se com espantosa rapidez a rampa da montanha, donde o “Galgo” ia precipitar-se arrastando a infeliz moça.
Já não restava mais que dois trancos do galope, quando arrebatado pela mão destra da amazona, que o suspendeu no ar, o “Galgo”, rodando sobre os pés, com as mãos no ar e quase vertical, retrocedeu a disparada em que ia, e sofreado veio esbarrar-se contra “Edgard”, que seguia a vinte braços de distância.
Com tamanha rapidez fora executada esta evolução, que antes de Ricardo voltar a si da surpresa, assomou-lhe em frente o rosto mimoso de Guida, animada pelo ardor da corrida, como pela galhardia da sua proeza eqüestre.
- Não sou tão má cavaleira, como pensava! disse-lhe a moça desfolhando um riso fresco e argentino.
- Não acho a menor graça nisto! retorquiu o moço com um modo sério e displicente.
- Assustou-se?... Por uma pessoa indiferente!... Se fosse uma irmã ou alguém que lhe interessasse!
- Não é nada agradável sair-se a passeio, e ter-se de assistir a uma catástrofe. Se me houvesse convidado para uma representação eqüestre à borda de um precipício, eu por certo não me acharia aqui; e sobretudo não concorreria de alguma forma para estas brilhaturas.
- Quer dizer que não me emprestava o seu cavalo? Então pensa que eu precisava dele para atirar-me da ladeira abaixo, se me viesse à fantasia experimentar essa emoção? Está enganado. Para isso preferia “Edgard”, pois com sua fleuma britânica, só obrigado por mim ele se precipitaria, mas friamente, como um cavalo que se respeita; e não desastradamente, e às cegas, como o seu “Galgo” que não tem maneiras.
- Em todo o caso, a senhora há de permitir que tire de mim a responsabilidade que tomei, sem a avaliar, disse Ricardo em tom firme, embora envolto em um modo cortês e polido.
- Pois não! Aí o tem, o seu mimoso! exclamou Guida saltando da sela, com extrema agilidade.
- Desculpe-me...
- Por quê? Por exigir o que lhe pertence? Estava em seu direito. No que não estava, e eu não lhe desculpo, é na idéia que fez de mim.
Dos lábios da moça desprendeu-se um riso sarcástico, prelúdio de sua palavra irônica:
- Pensa o senhor que tendo-o convidado para um passeio, era eu capaz de dar-me ao desfrute de correr um perigo qualquer, como por exemplo, o de atirar-me da montanha abaixo, para que o senhor, como um herói de romance, chegasse a tempo de salvar-me? Pois saiba que nada me aborrece tanto como esses romantismos, já tão vistos e corriqueiros. Além de que seria incômodo para nós ambos: o senhor teria de suportar todo o peso da minha gratidão; e eu de combater a cada instante os escrúpulos de sua modéstia e delicadeza. Imagine o agradável divertimento que teria cada um de nós, o senhor, esmagado pela minha riqueza e generosidade, eu, crivada pelos espinhos de sua dignidade.
Ao cabo de um mês não poderíamos nos ver; e faríamos um do outro a mais triste idéia.
Ricardo ocupado em trocar os selins dos cavalos, ouvia impassível essa loqüela. Reprimida a primeira contrariedade, conseguira dominar-se e estava resolvido a não interromper a moça; que melhor meio de apagar o fogo àquele despeito feminino?
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.