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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Ao inverso das parasitas, que absorvem a seiva estranha e nutrem-se dela, estas naturezas pródigas transmitem a sua substância. São como as flores privadas de estigma, que só viçam para comunicar o seu pólen ao seio das outras, e como estas não dão fruto na própria árvore, também elas não sabem sentir senão as alegrias e as tristezas dos seres a quem amam. 

Alina chegando ao terreiro ainda vira o Inácio Góis e perguntou a D. Flor: 

— Que disse o vaqueiro, Flor? 

— Nada, respondeu concisamente a outra.

— Então não há esperança? 

D. Flor respondeu com a cabeça, fazendo gesto negativo. 

— Coitada da Bonina! murmurou a órfã. 

E mais pesarosa da perda da novilha do que a própria dona, levou a mão aos olhos para esmagar as lágrimas que borvulhavam; e ficou-se a olhar para a companheira, buscando adicinharlhe os tristes pensamentos para repassar-se deles. 

Logo que as duas meninas se haviam sentado nos bancos da Oiticica, o Agrela que as vira de esguelha dirigirem-se para aquele ponto, achou jeito e tornar ambulatória a sua prática, e principiou a percorrer o terreiro ao lado do capelão. 

Sua direção aparente era o muro ensosso, espécie de barbacã, levantado em volta do terreiro. Tinha êle, porém, uma linha objetiva, que seu olhar indicava a cada instante fitando-se rápido, mas veemente, no formoso semblante de Alina. 

Porisso a cada volta, a linha declinava, formando um ziguezague, que não tardava cortar em uma de suas projeções a área coberta pela copa frondosa da oiticica. Padre Teles, que talvez por indícios anteriores percebera a estratégia do ajudante, prestava-se de boa vontade à manobra; mas com disfarce para não acanhar o rapaz. 

Foi mais adiante a complacência do capelão, pois ao passarem junto dos bancos, deu-se por fatigado, e sentou-se indicando ao companheiro o lugar, que ficava-lhe à direita entre êle e a moça. 

— Aquí, disse, travando familiarmente do Agrela pelo braço; vamos descansar um tanto. 

O mancebo ao sentar-se roçou de leve e sem querer a saia de Alina que, distraída e voltada para Flor, não se apercebera da aproximação dos dois passeadores. Sentindo o frolido de suas roupas, a moça acudiu surpresa para retrair-se com um movimento mais assustado e evasivo do que exigia a circunstância. 

Compreendeu Agrela a significação dessa repulsa e ergueu-se de pronto: 

— Não foi minha a culpa, mas do sr. capelão; disse êle com um azedume, que debalde buscou diluir no tom galhofeiro. 

— Tem lugar! murmurou Alina. 

Com estas palavras a moça erguera os olhos; e fitou-os no semblante de Agrela com um gesto tão meigo e compassivo que parecia exprobrar a si mesma de o ter magoado. 

— Êsse lugar é de outro, eu sabia, respondeu o mancebo com a mesma acrimônia. 

Alina corou, curvando a fronte como para subtrair-se ao olhar que penetrava-lhe os seios d’alma. 

Padre Teles tinha-se aproximado de D. Flor a pretêsto de a consolar da perda de sua novilha favorita, mas talvez para deixar em liberdade o ajudante de quem era camarada e cujos amores desejava favorecer. 

Aproveitando o ensêjo, Agrela dirigiu ainda algumas palavras rápidas à moça. 

— Essa melancolia é pela ausência dele? Não se aflija! Tenho ordem de descobrí-lo, vivo ou morto. 

— Arnaldo? balbuciou Alina. 

— Sim, Arnaldo. A ordem, eu a cumprirei em sua intenção. Não me agradece? concluiu o mancebo com ironia. 

A moça não pôde falar, mas exprimiu seu pensamento por um gesto eloquente, cerrando ao seio as mãos enlaçadas para a prece. 

Nessa ocasião voltava o padre Teles, e Agrela apartou-se com êle do grupo das duas moças.  


XX – O aboiar 

 

O sol transmontara. 

As sombras das colinas do poente desdobravam-se pelos campos e várzeas e cobriam a rechã dêsse candor da tarde, que em vez da alegria da alva matutina tem o desmaio, a languidez e a melancolia da luz que expira. 

Por aquelas devesas já envôltas no umbroso manto, só destacam-se as copas das árvores altaneiras ainda imergidas nos fogos do arrebol, e que de longe parecem as chamas de um incêndio rompendo aquí e alí do seio da mata. 

O gado espalhado pelas várzeas solta os profundos e longos mugidos com que se despede do sol, e que propagam-se pelo ermo, como os carpidos da natureza ao sepultar-se nas trevas. 

Respondem as vacas nos currais, e os bezerros misturam seus berros descompassados com os balidos das ovelhas e borregos, também já recolhidos ao aprisco.  

Lá das matas reboa o surdo estridor em que se condensam os cantos de todos os pássaros e o grito de todos os animais, para formar a grande voz da floresta, que exala-se, sobretudo nessa hora, abafada e sombria das espêssas abóbadas de verdura. 

(continua...)

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