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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Negais o que eu digo? perguntou a velha.

– Nego, disse rapidamente o mancebo.

– Enganou-se, respondeu com timidez a moça.

– Pois eu vou demonstrar que não; vou provar que conheço vosso coração mais do que vós mesmos; ou antes vou demonstrar isso somente à senhora, porque tu não podes negar, Cândido.

– Oh! minha mãe! por compaixão não abuse do meu estado!

– Senhora, Deus e a educação da virtude, tinha até bem pouco conservado o seu coração em toda a virgindade da inocência. Até bem pouco a senhora sabia o que era o galanteio; porque nesses poucos bailes a que tem ido, e nas reuniões que se fazem em sua casa, os cavalheiros que lhe cercam, lhe dizem finezas, e provavelmente a requestam; tem pois ouvido muito falar em amor; não o compreendia, porém, porque não o havia sentido. Corava pelo que lhe diziam, mas não corava de si; também é só assim que pode corar a inocência.

Sem o pensar, Celina estava ouvindo atentamente o que dizia a velha.

– Enfim, senhora, este mancebo apareceu, seu desvalimento, sua pobreza, a palidez de seu rosto, que parece indicar íntimo sofrimento, sua melancolia habitual, que quase dá o caráter de verdade à suspeita de suas penas, eram suficientes para recomendá-lo à alma das virtudes; mas além disto seus tios o trataram com amizade e confiança; e sobretudo, a senhora quando o viu pela primeira vez, viu-o onde?... como?... viu do meio dos túmulos e de joelhos, orando junto à urna que guarda as respeitáveis cinzas de seus pais.

– É verdade! é verdade!... exclamou a “Bela Órfã” com vivo acento de gratidão.

Uma onda de prazer indizível rolou sobre o coração do mancebo, e foi desfazer-se em leve sorriso, que dilatou por um momento brevíssimo seus lábios.

– Desde então, prosseguiu Irias, desde esse momento, quando no silêncio de seu quarto, ou nas fantasias do seu leito, a imagem deste mancebo se lhe desenha no espírito, não é, a senhora deve-se estar lembrando, não é sob a forma de um lindo jovem, vestido de brilhantes e custosas galas... não, a senhora não o quer assim, não o quer fidalgo nem príncipe, não o quer rico nem deslumbrador, a senhora o quer, a senhora o vê sempre abatido, pálido e melancólico, de joelhos junto ao túmulo de seus pais.

– É verdade!... é verdade!... exclamou com lágrimas nos olhos a “Bela Órfã”.

Cândido, enquanto Celina atendia exclusivamente à velha, devorava com ardentes vistas as pérolas de ternura que se escapando dos olhos da moça, pendiam de suas faces viçosas, como gotas de água límpida, caídas em pétalas de rosa.

Irias continuou:

– Depois, este mancebo começou a freqüentar o “Céu cor-de-rosa”, e a senhora, muito naturalmente, notou que nas reuniões que aqui têm lugar, os cavalheiros a cercam, a adulam e incensam, e que somente Cândido, exceção entre todos, se afastava e se deixava, e deixa ainda esquecer em um canto de sala. A senhora pretendeu explicar a si mesma uma tal singularidade, porque, primeiramente, a mulher é muito curiosa destas coisas, e depois enfim porque lhe doía que estivesse sempre longe de seu lado aquele que tivera o seu mesmo pensamento no dia de dor, e junto do qual se ajoelhara um momento no meio dos túmulos.

Ninguém interrompeu a velha; ela, porém, parou um instante para respirar e depois disse:

– Mas para se explicar a si mesma essa singularidade, a senhora devia observar o mancebo, e em algumas das vezes que para ele olhava encontrou seus olhos que, de súbito, se abaixaram; bastou, porém, esse momentâneo encontro de vistas para a senhora espantar-se do ardor, do fogo com que Cândido a olhava. Esse fogo, senhora, incomodou-a a princípio; depois essa chama começou a propagar-se, e não tarde seu coração ardia também; mas por que ardia?... por que começou um desassossego indizível a perturbá-la? por que em seu jeito pensava nos abrasadores olhares do mancebo?... por que lhe escapava um suspiro na solidão?... por quê? a alma virgem da moça o não podia dizer.

Celina nada respondeu; estava porém espantada, porque a velha dizia o que realmente se havia passado dentro dela.

– Mas hoje, prosseguiu Irias, hoje era o dia das revelações dos mistérios do coração. A manhã deste dia correu como todas as outras; a tarde contudo foi muito diferente para ambos. Senhora, um amigo disse o que na sua alma se passava, e a senhora o não compreendia. Antes do passeio da tarde que acaba de passar, a senhora já sabia que entre a “Bela Órfã” e o mancebo desvalido se abria uma flor perfumada e bela: – era a rosa do amor.

Os dois mancebos ficaram como que petrificados.

(continua...)

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