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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Empenha-se por ganhar ou perder dinheiro da maneira a mais desenxabida do mundo. Nesse momento, e quase ao mesmo tempo, Honorina e Raquel entravam no terrado, e Tomásia saía dele.

Tomásia tinha sofrido uma contrariedade no meio de sua glória dessa noite: o cavalheiro, que lhe havia pedido a sexta quadrilha, a tinha deixado ficar sentada, e Tomásia, quando não dançava, ou brigava com Venâncio, ou arquejava.

Há um costume velho nos saraus: ali se contam certos moços que querem dançar sempre e a todo o custo; e, se encontram todas as moças engajadas, atiram-se para dois lados das sociedades, os quais eles consideram talvez como dois esquadrões de reserva: são as crianças e as senhoras idosas; aí vão eles encher o número das quadrilhas que lhes faltam; porém, se no correr do sarau aparece alguma jovem que os queira ouvir, os meus senhores não têm dúvida nenhuma de deixar esperando inutilmente tanto a velha como a criança, que a vão buscar para a quadrilha. A Tomásia tinha sucedido, pouco mais ou menos, isso mesmo: seu prometido cavalheiro tinha deparado com uma jovem piedosa, e para logo esqueceu-se completamente de Tomásia, apesar mesmo de ser dona da casa.

Era por isso que Tomásia se achava em horas de tempestade; ardendo em desejos de encontrar em quem despejar seus furores, sua boa fortuna lhe mostrou o pobre Venâncio, que se dirigia para o interior da casa.

— Aonde vais, Venâncio?...

— Tomásia, vou ver como vai isto cá por dentro...

— E que tem o senhor com o que vai pelo interior da casa?... não sabe que isso pertence ao cuidado das senhoras?...

— Está bem, Tomásia, não te aflijas... estás tão colérica...

— Colérica?... e como não estar, se sinto a todos os momentos que me acho casada com um tolo, um água-morna, que para nada serve...

— Oh! senhora, nem mesmo agora me deixa descansar?!

— Vamos... vá para a sala... ou mesmo será melhor que fique cá dentro, para me não envergonhar.

— Então, Tomásia, disse pacificamente Venâncio, queres que vá ou que fique?..

— Quero que me não exasperes!... bradou a mulher; anda... dá-me o braço, e conduze-me à sala.

O pobre homem chegou-se para ela, e, torcendo-se com a dor dos beliscões que recebia, a foi acompanhando com os lábios enfeitados pelo sorriso mais mal fingido do mundo.

No entanto Honorina e Raquel se haviam assentado juntas em um dos bancos do terrado e conversavam alegremente, quando entrou um jovem, que poderia ter pouco mais ou menos vinte e dois anos, e que se foi sentar defronte delas triste e pensativo.

As duas moças, com uma rápida vista de olhos, fizeram um completo exame do recémchegado: era moço, magro e de estatura ordinária; tinha belos cabelos loiros, que lhe caíam em anéis em derredor da cabeça; estava pálido e triste, o que não deixava de dar alguma graça a seu rosto simpático, e talvez bonito para rosto de homem; vinha vestido todo de preto e de gravata branca, e prendendo à fina camisa um rico alfinete de esmeralda; calçava, enfim, botins envernizados. A figura graciosa e modesta desse jovem tocou notavelmente as duas moças; como ele se conservasse silencioso e com os olhos fitos no chão, elas começaram a falar em voz baixa.

— Quem é?... perguntou Honorina.

— Eu não sei, respondeu Raquel, não me lembro de ter visto este moço.

— Está vestido sem exageração, e com elegância...

— Traz ao peito um alfinete de esmeralda... a cor verde quer dizer esperança; então é porque ele tem alguma esperança no coração.

— Olha... ele não é feio.

— E está melancólico e pensativo... em que pensará ele?...

— Meu Deus... eu não posso adivinhá-lo.

— Pois pergunta-lhe.

— Raquel! tu julgas-me doida?...

— Não... mas tinha vontade de saber em que ele pensa.

— É que tu és muito curiosa, Raquel.

— Mas não, Honorina, é que é muito mau costume vir um moço sentar-se melancólico e cabisbaixo defronte de duas moças... e pensando... pensando em quê?...

— Olha... ele suspirou; Raquel, saiamos daqui.

— Por quê?... pelo contrário, demoremo-nos.

— Olha... suspirou outra vez...

— Coitado! Honorina! pergunta-lhe se está doente.

— Eu!... Deus me livre.

— Pois então pergunto-lhe eu.

— Raquel!...

— O senhor está incomodado?... perguntou a moça em voz alta.

O mancebo pareceu estremecer; ouvindo a voz de Raquel, levantou a cabeça e fitou nas duas moças dois olhos cheios de fogo.

— Perdão, minhas senhoras, disse ele com voz comovida, perdão, se tenho cometido alguma falta!... eu não sei de mim mesmo!...

— Está doente?... perguntou outra vez Raquel.

— Cala-te, extravagante! disse Honorina ao ouvido da amiga.

(continua...)

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