Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Então era sonho...
― E, se ela lhe aparecesse... se vossa excelência a visse de repente...
― Não vês que estou cego... Cego, meu Deus!
― Pois sim; mas se vossa excelência lhe ouvisse a voz, e lhe deixasse beijar as mãos...
Tu quando a viste?
Eu, senhor? Vi-a há oito anos, quando vossa excelência estava em França, e me mandou entregar-lhe o cofre dos enfeites.
― E estava aonde?
― Perto da vila de Barrosas, e casou no dia em que lá cheguei... Eu já contei a vossa excelência isto... ― Mas ela escreveu-me há coisas de ano e meio. Onde estava então?
― No Porto.
― E nunca mais soubeste dela nada?
― Não, fidalgo... Isto é... – tartamudeou o mordomo – quero dizer...
― Soubeste, ou não?
― Ela a mim nunca me escreveu; mas, cá em Ponte, ouvi dizer que o marido a deixara e fora para o Brasil.
― Por quê?
― Não sei... – responde pronto João Pedro, como quem esperava a pergunta, e tencionava esconder os boatos desairosos para a filha de seu amo.
― Não sabes? Alguma nova desonra!... Quem te contou isso? Quero saber...
― Não me recordo a quem o ouvi... Parece-me que foi um padre que já morreu.
― E que é feito dela? Sabes?
― Não sei, meu senhor.
― Quero que saibas... Vai saber isso ao Porto... Indaga por lá.
― E quem há de ficar à beira de vossa excelência?
― Um criado qualquer. Vai já hoje, assim que amanhecer... Sonhei que a via... Ver, meu Deus, ver!... Sonhei que a via... E o meu coração estava alegre... Procura-ma, procura-ma, João!
Seis dias depois, o mordomo voltava triste do Porto. As inculcas lançadas informaram-no de que Ângela, coberta de opróbrio e justo desprezo de todo mundo, se casara com um cirurgião, por amor de quem o marido morrera apaixonado; e ninguém sabia dizer, na vizinhança da casa onde ela habitara, o destino que levaram com certeza; havia, no entanto, quem afirmasse que tinham ido para o Brasil.
Das informações colhidas, João Pedro disse simplesmente que a Sr.ª D. Ângela, viúva do primeiro marido, casara segunda vez, e saíra ou para o Brasil ou para onde se não sabia.
E o mordomo, vendo contrair-se de angústia o rosto cavado de seu amo, chorou de compaixão dele, e de pesar de não ter encontrado Ângela.
― Agora, não se aflija, fidalgo... – disse com a voz quebrada o extremoso servo.
― Deus – soluçou o ancião – despertou-me o desejo de a ter comigo para me redobrar o martírio!... Seja feita a vossa vontade, Senhor!...
XXVI A PROVIDÊNCIA
Pernoitou em Ponte do Lima, no ano de 1853, um cavalheiro de Chaves, de apelido Pizarro, em casa de parentes que também o eram do general Simão de Noronha.
Dizia-se, à mesa da ceia, que o general aceitara o título de conde de Gondar, na última velhice, cego, sem descendência, sem sociedade, sem o mínimo prazer da vida, seqüestrado de toda a convivência, e, segundo se contava, tão desvairado de razão que deixava três enormes casas de bens livres aos irmãos da mulher da infama ralé com quem casara na primeira mocidade.
― E está cego o tio conde de Gondar? – perguntou o fidalgo de Chaves. – Cego sem remédio?
― Se tivesse remédio, tê-lo-ia achado em Paris, onde já foi duas vezes.
― Na minha província e perto de mim – tornou o flaviense – há um cirurgião da moderna escola que tem feito prodígios em operações de olhos. Se eu soubesse que o conde consentia ser examinado, obrigava-me a trazer-lhe o doutor Costa, como lá se chama, sem favor, ao admirável facultativo.
― Quem lho há de perguntar? Há mais de dez anos que não recebe nem visita alguém.
― Não importa: hei de eu ir procurá-lo.
Foi; anunciou-se, e teve entrada, porque o conde lembrou-se de ter conhecido, nas primeiras lutas da liberdade, um general, tio do cavalheiro anunciado.
Disse o visitante o propósito que o levava. Contou as maravilhas do doutor Costa e ofereceu-se a conduzi-lo à Ponte.
― Será inútil; mas que venha. Irá a minha liteira buscá-lo. Se eu pudesse ir...
― E por que não vai, senhor conde? – aproveitou o parente, aplaudindo o desejo. – O exercício deve ser-lhe útil. São dois dias e meio de jornada. Se ele se resolve a operá-lo, vossa excelência vai residir em Chaves na minha casa, ou em Monte Alegre, onde há boas comodidades; porque, se vossa excelência quisesse ser operado em Ponte, seria isso mais difícil ao doutor, que tem uma clínica, e não poderia assistir, como convém, ao curativo, e convalescença da operação.
Reanimou-se o cego. A esperança galvanizou-lhe as articulações emperradas pela imobilidade. Apertou nos braços com reconhecimento a dedicação do parente, e pactuou sair no dia seguinte.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.