Por Lima Barreto (1922)
Um desses milionários, caprichoso e voluntarioso, quis ir mais longe ainda. Tendo construído nos fundos de sua chácara, situada em um pitoresco arrabalde da capital da República da Bruzundanga, um tanque imenso, para dar banho aos cavalos de raça das suas opulentas cavalariças, teimou que havia de inaugurá-los soberbamente, com notícias nos jornais, bênçãos religiosas e um discurso feito pelo maior literato de Bruzundanga, ou tido como tal, enfim, pelo mais famoso.
Não posso garantir que o Creso tivesse pago ao celebérrimo poeta ou que este lhe devesse algum dinheiro; mas o certo é que, desprezando a dignidade de sua Arte e a Glória, a reputação literária mais absorvente e mais tirânica da Bruzundanga, pescou latim, grego, a cabala judaica, o Ramâiana, os Evangelhos e inaugurou com um discurso assim pomposo, e grandiloqüente, no estilo hugeano, o banheiro dos ginetes do multimilionário Har-al-Nhardo Ben Khénly. O altitudo!
O Parafuso, São Paulo, 12-3-1919.
A arte
O país da Bruzundanga, hoje República dos Estados Unidos da Bruzundanga, antigamente império, tem-se na conta de civilizado e, para isso, entre outras coisas, possui escolas para o ensino de belas-artes.
Naturalmente dessas escolas saem competências em pintura, escultura, gravura e arquitetura que devem ter mais ou menos talento; entretanto, ninguém lhes dá importância, seja qual for o seu mérito.
Se não conseguem lugares de professores, mesmo de desenho linear, nenhum favor público ou particular recebem da sua nação e do seu povo.
Houve um até, pintor de mérito, que se fez fabricante de tabuletas para poder viver; os mais, quando perdida a força de entusiasmo da mocidade, se entregam a narcóticos, especialmente a uma espécie da nossa cachaça, chamada lá sodka, para esquecer os sonhos de arte e glória dos seus primeiros anos.
Dá-se o mesmo com os poetas, principalmente os pouco audazes, aos quais os jornais nem notícia dão dos livros.
Conheci um dos maiores, de mais encanto, de mais vibração, de mais estranheza, que, apesar de ter publicado mais de dez volumes, morreu abandonado num subúrbio da capital da Bruzundanga, bebendo sodka com tristes e humildes pessoas que nada entendiam de poesia; mas o amavam.
A gente solene da Bruzundanga dizia dele o seguinte: "E um javanês (equivalente ao nosso "mulato" aqui) e não sabe sânscrito".
Essa gente sublime daquele país é quase sempre mais ou menos javanesa e, quase nunca, sabe sânscrito.
Todo estímulo se vai e uma arte própria lá não se cria por falta de correspondência entre o herói artístico e a sua sociedade.
Não é que ela não tenha necessidade dessa atividade do espírito humano, tanto assim que os jornais da Bruzundanga vêm pejados de notícias, encômios, ditirambos às mediocridades mais ou menos louras do que as de lá.
Tenho aqui adiante dos olhos um jornal da Bruzundanga que trata de um poeta da Austrália, cujos melhores versos são como estes:
Fui lá em cima ver meu Deus;
Voltei triste, por nada encontrar. Mas se tiver forças hei de voltar Para vê-lo de novo outra vez.
A notícia está assinada com o nome do autor e justifica os elogios que lhe faz, com estas palavras, cuja aplicação devia caber aos seus camaradas e contemporâneos, para animá-los a fazer grandes coisas. Ei-las:
"Nada mais agradável e, sobretudo, nada mais útil que aplaudir aos espíritos que apenas desabotoam, ainda cheios do calor dos primeiros sonhos, ainda ressoantes da vibração dos primeiros vôos. Para eles não deve ser a crítica um instrumento frio, insensível, com as asperezas de uma medida certa, senão uma voz de estímulo, uma alentadora voz que embale o coração e penetre, carinhosamente, a inteligência que reponta. O comentário, sem ser exagerado, para não se tornar prejudicial, sem ser frívolo, para não se transformar em elemento nocivo, em fonte de erros e vícios, deve procurar os aspectos mais significativos do temperamento que surge, apontando, com amoroso intuito, as insuficiências, as indecisões da primeira hora, as dúvidas e as hesitações peculiares aos que começam. Geralmente, porém, não costumam os críticos profissionais usar de tais cautelas antes preferem exercer o seu mister, com rudeza e impassibilidade, confundindo autores novos, sem responsabilidades literárias ainda firmadas, para os quais o maior rigor é brandura." É engraçado que seja só maior rigor a brandura quando se trata de poetas da Austrália; mas quando se trata de vates da Bruzundanga a maior brandura é o rigor.
Não é só assim em poesia. Nas artes plásticas, na música, tudo é assim.
Chega à capital da Bruzundanga um
pintor que se diz pintor e espanhol, a quem ninguém nunca viu ou conheceu, e
logo os críticos dos jornais, viajados e lidos, finos e limpos de colarinhos,
logo dizem: "Este Dom Tuas y Trias é Velázquez, é Zurbarán, é o Greco, é
Goya, etc., etc."
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.