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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Quem tivesse negócios, pretensões, requerimentos no Congresso, dentre as muitas outras influências decisivas, procurava logo, a amante de Macieira. Os seus conhecimentos e relações se estendiam nas várias camadas sociais e recebia na rua cumprimentos discretos de pessoas importantes. Nem sempre o seu trabalho era remunerado; muitas vezes interessava-se por compaixão e por bondade.

Morava no Flamengo e tinha uma casa principesca e risonha, que saltava de um jardim bem tosado, olhando Jurujuba do outro lado. Recebia, dava pequenas festas, jogava-se em sua casa e muita moça de boa família teve desejos de lhe ver as salas.

Gostava do interior, sabia encantá-lo e aos criados, educava com um jeito peculiar, de modo a tê-los durante anos, sem queixas nem ralhos.

Nas salas do seu “chalet”, muita cartada política foi jogada, muita traição foi combinada com segurança, pois, em geral, as suas visitas femininas eram de atrizes, cantoras e damas de semelhante jaez, estrangeiras em geral, tidas por doidivanas e mais do que doidivanas, sem nenhum interesse pelos destinos do país.

Fuas e Macieira, com outros parceiros, entre os quais o mais assíduo era o major Crótalo, formavam lá, quase diariamente uma mesa de pôquer, onde se jogavam contos de réis; e foi em uma dessas partidas que se decidiu adotar Bentes como “belier” contra a chapeada teimosia em que estava o “Velho” na candidatura de Xisto.

Fuas, até, interrompeu a partida, redigiu o manifesto ali mesmo, sobre uma secretária minúscula e catita de mulher “chic”, leu-o a Bentes, foi aprovado e, ao dia seguinte, publicado num estouro.

Arlete estimou que a sua casa se tivesse assim se tornado histórica e bendisse as conseqüências do fato, porquanto estava em oposição declarada, desde o veto ao projeto da venda da Estrada de Mato Grosso.

As suas esperanças todas estavam no governo de Bentes, mas, durante o interregno que corria, ela não deixou de trabalhar em prol da iniciativa pública e particular.

Macieira a tinha deixado naquela manhã, sem mesmo almoçar, quando ela foi interrompida na leitura de uma brochura francesa. Anunciaram-lhe a visita de uma senhora. Foi vê-la e logo gostou daquela senhora bem apessoada, elegante, com uns sedutores olhos negros, moça ainda, que ficara de pé com tanto donaire. A visita também gostou daquela velha francesa que se movia na sua sala com tanto esquecimento de que era dela mesmo.

— Minha senhora, eu sou a viúva do D. Lopo Xavier. Não sei se conheces?

— Conheci... Juiz, não era?

— Sim, minha senhora; e escreveu muito.

— Eu sei... Ouvi falar... Era homem de talento.

— Era, minha senhora; e, há quase um ano, requeri ao Congresso uma pensão. A senhora sabe; o montepio é pequeno... não deixou nada... Como a senhora tem alguns conhecimentos, eu...

— Não tenho lá grandes — disse a francesa sorrindo manso — entretanto pedirei aos meus amigos...

— Se a senhora quiser, sou pobre...

— Sim... Sim... Eu me interesso, minha senhora. Descanse.

— Então posso contar com a boa vontade da senhora? — Pode.

A viúva Lopo Xavier pôs-se de pé com todo donaire, ajustou a blusa na cintura e saiu agradecendo muito a bondade e o interesse de Mme. Arlete.

Lucrécio Barba-de-Bode sabia perfeitamente do valimento dessa dama no ânimo de vários políticos, mas não quis incomodá-la, visto poder pedir diretamente a Macieira . O senador não gostaria que o fizesse e ele, cuidadoso em manter a boa vontade dos enfastiados, não os contrariava nessas pequenas coisas de temperamento.

Como Lucrécio não pudesse ir ao dia seguinte à casa de Macieira, Bogoloff foi só. Lucrécio tinha passado toda a noite, com outros de sua dedicação a impedir que fossem afixados pelas esquinas da cidade, boletins em que se diziam duras verdades sobre Bentes; e, tendo falado a respeito com Macieira, o russo podia procurá-lo sem susto.



(continua...)

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