Por Aluísio Azevedo (1891)
No fim de algum tempo, Alzira chamou a si as rédeas do seu cavalo.
— É aqui, disse. Chegamos afinal!
Os dois apearam-se.
Achavam-se na estreita garganta de uma sombria serra, onde nenhum rumor de folhas se escutava.
— Andemos, disse ela.
Ângelo obedeceu.
E seguiram caminho avante, por entre um pedregal de serros e cabeços silenciosos, que se perdiam no céu, escondendo-lhe as estrelas.
O caminho fazia-se cada vez mais escuro, mais penhascoso e íngreme. Era já necessário aos dois ampararem-se um no outro, para que não rolassem juntos por aqueles precipícios.
Afinal, penetraram num vale, fechado entre rochas negras e gigantescas, em torno das quais giravam aflitivamente sinistras aves, que corvejavam e gemiam, como se a cada instante rasgassem o peito nas arestas da pedra.
Era um convulso redemoinhar sem tréguas, lembrando um irrequieto bando de gaivotas, a doudejarom sobre as águas, no alto mar, quando a tempestade se aproxima, abrindo as longas asas prendes e agoureiras.
— Que diabo vimos nós buscar aqui?! perguntou o sonhador, intimidado por aqueles loucos gemidos que singravam no espaço.
— Viemos buscar dinheiro... respondeu Alzira.
— Dinheiro?... Para que dinheiro?...
— Ora essa! Para tudo! com dinheiro teremos prestígios nos lugares que vamos percorrer!
E avançando alguns passos, mostrou ao companheiro uma grande pedra encravada no rochedo.
— Vês esta pedra? disse ela. É a porta das cavernas do Ouro. Nesta misteriosa gruta acha-se encerrada toda a riqueza dos avarentos já mortos, entesoura-se aí todo o ouro desses miseráveis, que em vida sofrem as mais duras privações, para acumular dinheiro sem proveito de ninguém!
— E como vieram parar aqui todas essas riquezas?... indagou Ângelo.
A cortesã explicou:
— Por intermédio dos herdeiros pródigos e das mulheres da espécie a que pertenci no mundo dos vivos. Por minhas mãos passaram muitos e muitos milhões, que aqui caíram, derramados em longas e ruidosas noites de orgia. Esta esplêndida caverna é o tormento das almas amarelas dos usurários...
— E ao mesmo tempo é o teu banco... faceciou Ângelo.
— Justamente, tornou Alzira. Quando preciso de dinheiro, venho buscá-lo aqui.
— E estas aves, porque esvoejam em torno da montanha, e por que soltam assim uivos tão tristes?...
— São as almas dos avarentos... Rondam, noite e dia, sem cessar, o tesouro que já não podem possuir e que ainda cobiçam. Atrai-as o cheiro do dinheiro! Deixa-as lá, míseras que são!
E Alzira encaminhou-se para o pedregulho que fechava a gruta, e tocou sobre ele com a sua linda mão cor de nove.
A pedra afastou-se incontinente, e uma fulgurante abertura fez defronte da cortesã, jorrando luz como a boca de uma fornalha.
As aves que rondavam a montanha, assanharam-se e logo se puseram a rodopiar com mais fúria, multiplicando os uivos e os gemidos.
Ângelo adiantou-se deslumbrado, olhando para dentro daquela esplêndida galeria de ouro e pedras fulgurantes.
— É maravilhoso! exclama ele. É surpreendente! Oh! quanta riqueza! Que interminável tesouro!
E olhava, fascinado.
A galeria, plana embaixo e por cima abobadada, firmava-se em colunas de ouro. O chão era calçado de moedas de todos os países; de espaço a espaço erguia-se um repuxo também de ouro, donde espipava ouro líquido que se derramava, entre rocas de esmeralda, formando reluzentes lagos nunca secos. Do teto pendiam estalactites de ouro, de coral e de topázio. As paredes cintilavam num delírio de fogos multicores, em que fulguravam diamantes, safiras, rubis, opalas e cornalinas.
— Oh! Que deslumbramento! exclamou Ângelo, sem desviar os olhos da refulgente caverna. Que grande maravilha!
— Não tão grande, opôs-lhe Alzira, procurando com os lábios alcançar-lhe a boca; não tão grande como o amor que me inspiraste!
Ângelo não lhe ouviu as palavras, nem recebeu a carícia que ela lhe oferecia. Toda a sua atenção era para a sedutora caverna.
— Não me escutas, meu querido amor?...
Ele, em vez de responder, perguntou avidamente:
— Eu também posso levar daqui o ouro que quiser, não é verdade?...
— Não, disse Alzira entristecendo; não podes carregar daqui com um grão de ouro... Eu, sim!
— Por quê?
— Porque nunca foste perdulário... Ah! mas descansa que nada te faltará!... Estarei sempre a teu lado, e sempre terás à mão a minha bolsa.
Ângelo abaixou os olhos, empalidecendo.
— Que tens, meu amor?... interrogou a amante. Sentes-te mal? ... Fala. — Nada!...
E cerrou os punhos, rilhando os dentes.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.