Por Aluísio Azevedo (1897)
— Não os tenho... respondeu ela, sem levantar os olhos.
— E contudo, observou Gabriel, há muito de misterioso e triste em todos os seus gestos... Digame a verdade!... às vezes uma revelação suaviza os nossos pesares...
— Não, nunca lhe direi uma palavra... é exato haver cá dentro um motivo de desgosto, mas esse motivo nunca será denunciado por mim... Eu o confessaria francamente, no caso que o senhor o descobrisse... porém, declarálo eu... isso nunca!
— Minha amiga!...
— Não insista. Aqui, onde me vê, feia e pobre, também tenho o meu bocadinho de orgulho...
— E se eu adivinhasse o seu segredo? se eu descobrisse o que a faz mergulhar assim nessas indefinidas tristezas?... Digame: confessaria tudo?
— Sim, já disse que sim...
— Mas eu tenho receio de enganarme... Às vezes supomos distinguir aquilo que desejamos ver, e essa ilusão é uma felicidade que se desfaz ao tentarmos alcançar a bela miragem!...
Gabriel calouse por algum tempo; depois, aproximou mais a sua cadeira da de Eugênia, debruçouse para ela e acrescentou quase em segredo:
— Se soubesse como sofro!... nem mesmo sei explicar o que sinto... São desejos vagos e incompletos, um querer sem vontade, um desejar sem ânimo, um aspirar sem destino e sem coragem. E contudo, sinto que me falta alguma cousa... Se me perguntarem o que é não saberei responder; mas sinto necessidade de dedicarme a qualquer idéia, a qualquer cousa. Preciso de um ideal que ocupe a minha atividade, que exija os meus sacrifícios, que me anime, que me estimule. Ah! E venham falarme ainda nos encantos da mocidade, nos risos dos vinte anos... Não! nada disso existe! Sou moço, rico, tenho vigor e saúde, e, no entanto, sofro, sofro muito! sinto a existência pesarme sobre as costas como um castigo!
Eugênia, que o ouvia de cabeça baixa, ergueua docemente, com um sorriso.
— É justamente porque nada lhe falta, que o senhor se aborrece e não aprecia a existência... disse ela. Tivesse, como outros, de trabalhar para viver, e os seus dias correriam alegres e ligeiros. Como quer o senhor gostar da existência, quando nem sequer conhece?... A vida consiste no esforço, no trabalho, na dedicação e no sacrifício. O senhor nunca experimentou nenhum desses gozos, que entretanto são os únicos verdadeiros. Quer ouvir um conselho?... Ame e trabalhe, dediquese a alguém e a alguma cousa, constitua família e forme a sua responsabilidade de homem. Sem essa resolução, o senhor há de sentir sempre o mal de que se queixa, e nunca poderá ser feliz.
— Bem! Pois vou então falarlhe com toda a franqueza; vou abrirlhe o meu coração, para que a senhora escolha e guarde o que nele houver de aproveitável, e lance fora o resto...
Eugênia estremeceu e largou o trabalho que tinha entre mãos. Gabriel aproximou ainda mais a sua cadeira, e fitou os olhos da rapariga, postos agora tranqüilamente à espera.
Estavam transparentes, infinitamente doces, e viase no fundo deles brilhar o sorriso de uma esperança.
Houve entre os dois moços um idílio instantâneo e mudo, precursor do "Amote!" sagrado.
Nesse momento, porém, entrou o Sr. Windsor, que os buscava para a cerimônia do chá.
Gabriel prometeu a Eugênia fazerlhe no dia seguinte a suprema revelação prenunciada. Iria visitála expressamente para este fim.
Mas, nessa mesma noite, ao entrar em casa, o criado entregoulhe uma cartinha perfumada e corderosa.
O moço abriua, e leu:
"Gabriel. Não queria procurarte. Tencionava nunca mais te ver, nem te falar. Não posso! A porta do jardim ficará aberta durante a noite. Às onze e meia já todos os de casa estarão recolhidos... Amote!
Vem!
Ambrosina"
Gabriel leu o bilhete de Ambrosina, uma, quatro, vinte vezes.
Aquelas duas últimas palavras, breves, quentes e palpitantes, faiscavamlhe no cérebro: "Amote Vem!"
— Que harmonia! Que música! Como lhe soavam agradavelmente ao coração aquelas notas feiticeiras! "Amote! Vem!"
Um paraíso em duas palavras! Um mundo de delícias! Um rosário de venturas!
— Como sou feliz! Como sou feliz! exclamava ele, incendiado pelas duas palavras de fogo.
Possuir Ambrosina! amála e ser amado por ela! têla ao alcance da mão, ao alcance dos braços, ao alcance da boca!... Oh delírio! Oh supremo gozo!
Gaspar achavase nessa ocasião à cabeceira de um doente em Petrópolis, e a Gabriel quadrava esta circunstância, porque lhe permitia saborear mais à vontade aquele alvoroço do seu amor. Era a primeira vez que não sentia vontade de comunicar um segredo seu ao padrasto. É que Gaspar, com certeza, acharia mau tudo aquilo, e privarse Gabriel da felicidade sonhada, seria privarse da própria vida.
Despiuse cantarolando; acendeu um charuto e deitouse de costas na cama, a olhar para o teto, e a ler no espaço estas palavras:
"Amote! Vem!"
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.