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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— É verdade ; tem mais esse prestigio a seu favor. Dizer-te que é um anjo, uma fada, que respira em todo o seu ser um perfume de celestial candura e innocencia, que impõe o respeito e adoração é proferir palavras banaes, que nada exprimem. É preciso vel-a para poder formar perfeita idéa de sua deslumbrante formosura. Meus companheiros, que apenas a têm visto de relance, tambem ficárão impressionados ao aspecto de tão rara belleza.

— E tu? .. . a tens contemplado mais á vontade ?

-— Felizmente não sei porque, parece-me que agradei-lhe mais do que qualquer outro. No lado da casa que olha para a nossa, ha apenas uma pequena janella, que dá para o tal terreno neutro, de que te fallei, o qual fica tambem por baixo da janella do meu quarto.

— Oh ! que condições favoraveis para o mais renhido namoro! — exclamou Frederico.

—- É verdade; mesmo da minha mesa de estudo posso vel-a, quando chega á sua janellinha, moldura bem pouco digna daquelle busto mais lindo e mais ideal do que as virgens de Raphael... Alli apparece ella algumas vezes, mas si acaso avista algum dos meus companheiros, retira-se immediatamente.

— Mas de ti nunca ella foge?...

— Não; fica, emquanto eu fico, e creio que só se retira quando é chamada por alguem de casa.

— Oh! quanto és feliz, meu Carlos ahi temos outra vez quasi a mesma aventura de Piramo e Tisbe. Mas dize-me; teu namoro não passa dessas olhadélas de longe? ainda não pudeste conversar de perto com ella ?

— Converso da janella quasi que somente por mimica. Entretanto ultimamente pude obter uma entrevista.

— Uma entrevista! oh ! pois que mais desejas Q pela maneira com que as cousas te vão correndo, só vejo motivo para andares pulando de contente, e não assim como andas, torvo e sombrio, como o Hamlet de Byron.

Ah! meu amigo ! foi mesmo essa entrevista que me lançou o desanimo n'alma, fazendo-me conhecer toda a complicação e estranheza de minha situação.

— Como assim? não posso comprehender-te.

— Vou já explicar—te tudo. Por palavras conversadas cautelosamente ella concedeo-me uma entrevista em horas mortas da noite. Saltei ao pateo na hora aprazada e fui collocar-me junto á janellinha, onde ella não tardou em apparecer. É escusado, e seria enfadonho para ti estar a descrever-te as emoções que senti.

— Oh ! bem dizia eu; temos Romeo e Julieta.

— Mas a minha Julieta...

— Que tinha ella?

— Vaes já saber. Depois de termos feito em termos bem explicitos mutua declaração de nosso amor, disse-me ella por fim com voz tremula e vacillante .

— Eu sei que o senhor me quer muito, e eu tambem lhe tenho muito amor, mas este nosso amor não deve continuar. . .

— Ah I não me falles assim ; não deve continuar porque, minha querida ? . .

— Ah ! bem me custa lhe confessar isto ; mas... mas eu... eu não sou digna do seu amor.

A estas palavras um calafrio percorreo-me todo o corpo. Por que razão a menina se julgava indigna do meu amor? A interpetração mais natural que se me apresentou ao espirito, foi que aquella menina, apezar de -parecer tão ingenua e pura como um anjo, já poderiater maculado o véo da innocencia no lodo da devassidão, e por isso, conservando ainda um pouco de sinceridade, se confessava indigna de ser por mim amada. Esta sinistra idéa pungio-me cruelmente o coração.

-— Mas porque me diz isso? porque se julga indigna do meu amor, minha senhora? perguntei-lhe em tom um tanto brusco.

É porque eu não sou nenhuma senhora, respondeo ella com voz timida e e angustiada. — sou uma simples escrava do senhor Baziliov — Escrava ! escrava a senhora! gritei com sorpresa e indignação, esquecendo o logar e as circumstancias em que me achava. Foi preciso que a menina me tapasse a bocca, para que eu não continuasse a proromper em gritos e exclamações, que terião trahido a nossa entrevista. Foi mistér que ella asseverasse mais duas e tres vezes e confirmasse com juramento para eu acabar de crer que ella era realmente escrava. Fiquei por alguns instantes acabrunhado sob o peso de tão cruel e estranha revelação. Como é concebivel com effeito, meu caro Frederico, que aquella mocinha de tez tão clara, de feições tão regulares e perfeitas como as de qualquer moça de pura raça caucasiana, tenha sangue dessa raça desventurada, que nossa deshumanidade e cobiça condemnou á escravidão ?

Nada mais simples, Carlos; com a continuação do cruzamento, a raça africana se depura e aperfeiçoa, e eu tenho visto mais de uma escrava mais branca e mais bonita que sua senhora.

(continua...)

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