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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Em seu começo os trabalhos de que se incumbiu o Sr. Fialho provocaram reparos da parte de algumas pessoas que viram com um pesar bem explicável serem derribadas não poucas das antigas árvores do Passeio Público.

Concebe-se por certo que devia causar uma impressão desagradável o sacrifício de árvores a cuja sombra se descansou tantas vezes em horas de ardente calma. Compreende-se ainda mais aquela impressão dolorosa, quando nos lembramos do nosso clima e de que vivemos em uma cidade nua de árvores e de jardins públicos.

Mas um exame refletido e a observação do que se está fazendo no Passeio Público, devem dissipar os reparos e essa impressão desfavorável.

Primeiramente, desde que foi aprovada a planta do novo jardim e que se entrou na execução deste, tornou-se inevitável sacrificar alguma coisa do que existia, ao sistema que se ia empregar, e parecera a todos, sem dúvida, preferível antes a perda de um certo número de árvores, aliás de pouco valor, à mutilação do plano do jardim e o abandono dos preceitos da perspectiva, que de tão essencial importância se mostram em obras dessa ordem.

Além disso, cumpre notar que as melhores árvores que se mostravam no Passeio Público foram respeitadas. De muitas apenas se cortaram os ramos que amesquinhavam outras mais delicadas e preciosas, que à sua sombra não podiam medrar. Algumas ainda nem mereciam a posição que ocupavam no nosso jardim.

As árvores do Passeio Público cresciam e desenvolviam-se livres de todos os cuidados da arte. Era uma reunião de vegetais-criados sem educação, sem amor e sem direção e escolha regular. Alguns ou muitos dos mais possantes atropelavam e asfixiavam outros quase sempre mais estimáveis. Encontram-se plantas e árvores raras, enfermas e quase mortas, e que hoje se mostram já animadas e cheias de vida.

Observe-se especialmente uma palmeira muito preciosa que, achando-se de um lado abafada por algumas árvores corpulentas e por uma folhagem densa e cerrada, se revoltou contra essa prepotência vegetal e, procurando a luz, que era para ela a vida, dobrou-se toda para o outro lado, perdeu a posição perpendicular em que naturalmente devia mostrar-se e, por amor do sol, apresenta-se hoje inclinada como a torre de Pisa.

Não tenho em mente nem poderia fazer uma descrição completa do novo jardim que se nos prepara. Quis apenas dar uma idéia da obra em que se está trabalhando, e contento-me com o que acabo de dizer sobre este ponto.

Mas, além dessa grande reforma no interior do jardim, consta-me ainda que o Governo vai mandar substituir o triste e pesado muro do Passeio por grades de ferro, que lhe darão muito mais graça, e que então a rua do Passeio, que tem atualmente 45 palmos de largura, roubará ao jardim mais 27 palmos e ficará pelo lado deste flanqueada de árvores que estão em muito bom estado.

Não se deve lastimar essa porção de terreno de que tem de ficar privado o Passeio, pois que com ela se aformoseará a rua que pela frente lhe corre. Mas por que não há de o Governo pagar ao jardim o espaço que vai dele tirar, quando isso tão fácil e tão conveniente parece?

Do canto mais saliente do muro do Passeio até à igreja dos carmelitas há 25 braças e dois palmos, cujo fundo até ao cais orçará talvez por 50 braças. A reunião desse terreno ao nosso jardim público pouco dinheiro deveria custar ao Governo e ao Passeio, que, de tão pequeno e acanhado, daria mais algumas proporções.

É indisputável que seria um grande erro deixar incompleta a reforma do Passeio Público por uma consideração de falsa economia de alguns contos de réis.

Não é somente esse aumento de terreno que deve ser determinado pelo Governo. Há ainda outras despesas que não se podem dispensar.

Por que, por exemplo, hão de ficar no seio do jardim aqueles dois pavilhões octogonais que não têm nem a elegância nem as condições artísticas necessárias para que se possam achar de harmonia com os trabalhos que vão ser executados? Não é justo substituí-los por outros que melhor se recomendem?

Assevera-se que não se tocará no terraço do Passeio. Mas, neste caso, substituirá aquela grade de ferro enferrujada e arruinada. Era uma grade excelente e a deixaram perder-se por incúria. Agora, porém, está tão estragada que necessariamente deve ser substituída.

E aqueles torreões octogonais das extremidades da varanda ficarão sempre representando um contraste com os dois antigos e quadrangulares em que se extremou o Xavier das Conchas? Pois não há aí algum artista que nos venha provar que se pode fazer alguma coisa naquele gênero arquitetônico, e coisa que feche a boca aos velhos e não os deixe tirar da comparação do seu com o nosso tempo uma conseqüência que nos obrigue a abaixar os olhos?

(continua...)

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