Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
O pretexto foi a inconveniência que resultava, do seu subito e inexplicavel desapparecimento de uma casa onde fora constantemente bem recebido e obsequiado. O meio foi a necessidade de ter uma explicação decisiva com Christina.
Tomada esta dupla resolução, Innocencio, desejando por um lado não encontrar-se com Victorino, e por outro escapar ao menos uma vez á companhia de seu padrinho, sahio uma tarde ainda cedo, e sósinho dirigio-se á chácara de Fagundes,
Christina estava no jardim e vio o mancebo aproximar-se della: não avançou um passo para encontral-o, nem recuou um passo para fugir-lhe ; ao menos porém sorrio ao vêl-o chegar.
Innocencio abrio o coração para receber aquelle correio.
— Até que emfím voltou ! disse Christina.
— Suppunha então que eu não voltaria ? perguntou o mancebo.
— Não sei, respondeu a moça; quem comprehende o coração de um homem ?
— Tem-se feito mil vezes essa pergunta, minha senhora, mas sempre a respeito do coração da mulher.
Christina tornou a sorrir.
— Sim, minha senhora, continuou Innocencio: é somente o coração da mulher que se reputa incomprehensivel; eu porém via em V. Ex. uma bella excepção a essa regra pouco lisonjeira para o sexo amavel.
— E mudou de opinião ?
— Não mudei ainda, mas é possivel que mude.
— E porque ?...
— V. Ex. o pergunta?... Se quer zombar de mim, é uma crueldade e um sacrilegio, porque atormentaria o amante e ridiculisaria o amor.
— Que amor! que amor é esse tão forte e irresistivel que pode dormir oito dias ?...
Innocencio sentio brilhar de novo a seus olhos a mais suave esperança: daquellas palavras transpirava uma queixa, e essa queixa era para elle a felicidade, a gloria.
O credulo mancebo não sabia que Victorino não apparecêra na chacara de Fagundes nas duas ultimas noites.
— Sentio então a minha ausência ? perguntou Innocencio.
— Senti e chorei: senti, porque a sua ausencia me parecia um desengano cruel; chorei, porque suppuz que ella podia ser aconselhada por um resentimento infundado, e, ousarei dizel-o, por um ciúme injusto.
— Christina!...
— O senhor é máo para mim ! disse a moça, levando o lenço aos olhos,
— Oh ! não chore ! não ! exclamou Innocencio : é verdade... o ciume torna-me injusto ; eu porém venho hoje merecer o meu perdão, pedindo-lhe licença para dar um passo decisivo, que deve ser o principio da nossa felicidade.
— E qual ?...
— Se o permitte, pedil-a-hei hoje em casamento a seus pais. Christina estremeceu e corou.
— Permitte-o ?...
A moça tinha os olhos no chão e meditava.
Innocencia tremia por sua vez.
— Permitte-o ?..
Escute, disse Christina commovida : o senhor vem me offerecer uma dita que desde muito desejo ; mas de hoje a tres dias eu faço annos, e ser-me-hía ainda mais agradável que o seu pedido fosse feito no meio da festa do meu anniversario natalicio :concorda ?.,.
— Oh ! Christina ! a felicidade não se adia aproveita-se no mesmo instante em que se mostra.
— Nega-me isso ?... Talvez seja um capricho, mas eu lh'o peço.
— Pois bem : de hoje a tres dias virei pedir a sua mão a seus pais.
Innocencio retirou-se ao anoitecer, não completamente tranquillo, um pouco porém mais socegado.
Se se tivesse demorado até mais tarde, poderia ter apreciado devidamente a influencia de sua entrevista com Christina, porque nessa noite Victorino veio acompanhado de seu pai e de seus irmãos á chacara de Fagundes.
Innocencio dormio mal : a insistencia com que Christina lhe rogara que adiasse o pedido de casamento, causára-lhe desagradavel impressão.
No dia seguinte, logo depois de deixarem a mesa do almoço, Geraldo-Risota levou Innocencio para a saio de visitas, e, sentando-se em frente delle, perguntou-lhe:
— Onde foste hontem á tarde?
— Á chacara do Sr. Fagundes.
— Adivinho que tiveste uma explicação com a tua namorada.
— É exacto.
— E então ?...
— Pedil-a-hei em casamento depois de amanhã. Geraldo-Risota fez uma careta.
— Diabo !... querem ver que o vento deixou de soprar !
— Meu padrinho !...
— Não fallemos mais nisso,'por ora. É a terceira decepção, que poderá chegar mais tarde.
— Como ?...
— Já leste o Jornal do Commercio de hoje ?
— Ainda não.
— Pois lê; toma-o.
— Innocencio recebeu o Jornal, abrio-o e leu a Gazetilha.
— E possivel!... exclamou o mancebo : Anselmo Cubas deputado pelo meu districto eleitoral!...
— Se não acreditas, esfrega os olhos e lê outra vez.
— Mas Anselmo Cubas nunca foi áquelle districto, e nenhum dos eleitores o conhece !...
— E o elegerão sem saber se é vegetal ou mineral ? Que novidade !
— É incrivel !...
— E quantos votos tiveste ? ......
— Dous, meu padrinho ! somente dous !
— Eu não esperava tantos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.