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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Hanh!... fez o idiota com essa interjeição ou bocejo, que na sua bruta linguagem exprimia uma interrogação embasbacada.  

- Til!... tornou Berta com a pronúncia clara e vibrante. 

  Forcejou o infeliz para articular o monossílabo; mas só a custo, e ajudado por 

Berta, o conseguiu. Causou-lhe isso tão intenso prazer, que a todo o instante proferia o nome, e amiudando-o trinava com ele, a modo dos pássaros quando em seu crebro gorjeio repicam a mesma nota. 

  Assim identificava com a carta pela estranha afinidade que inventara a estultice do menino, Berta recobrou a esperança que já a ia abandonando. 

  Um dia, Brás com violento esforço e após funda concentração, arrancou dos beiços grossos e flácidos estas palavras truncadas: 

- Brás... bem Til... muito... muito!... 

  Sorriu-se Berta, e agradeceu-lhe com um carinho. 

- E Til?... interrogou o idiota com ar ansiado. 

- Til quer bem... 

  Com um repente, mostrou-lhe Berta a carta, pondo o dedo sobre o a . 

- A este!... 

- Pela primeira vez reparou o rapaz na forma da letra, que se lhe gravou na memória. 

- Hanh?... tartamudeou ele ofegante. 

- Afonso! 

  Arreganhou-se a estólida cara do idiota na terrível catadura de um sabujo de furor. Arrebatando o abecedário da mão de Berta, despedaçou-o para arrancar o a, que trincou nos dentes com sanha. 

  À princípio atemorizou-se a menina; mas logo, revoltando semelhante fraqueza as energias de sua alma, tranqüilamente e com ar de indiferença observou aquela cólera brutal, que atingiu a maior exasperação. 

  Como se esperasse justamente esse momento culminante do acesso, chamou Berta o idiota para junto de si com um aceno; e bastou-lhe pousar a mãozinha afilada sobre o ombro para aplacar-lhe a exacerbação. 

- Til gosta deste! 

  Estas palavras, disse-as a menina mostrando com a unha rosada o b e repassando-as de uma voz tão doce, que derramou na alma ulcerada do mísero um ignoto consolo. Voltou ele para Berta os olhos baços, que iluminaram-se com um reflexo vítreo. 

  Compreendeu Berta a muda interrogação, e a satisfez. 

- É Brás! 

- Til?... balbuciou a voz trôpega, enquanto o dedo convulso apontava a letra. 

- Sim! disse Berta. 

  Caiu Brás em um novo acesso, porém este de alegria, que chegava ao delírio. Atirando-se ao chão, estrebuchou de prazer, soltando gritos descompassados e risos sibilantes, que mais pareciam guinchos de um animal bravio. 

  Assim em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente agrupando todas as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam. Pondo em jogo as broncas paixões do idiota, e colhendo os rudes germes de idéia que se formavam em seu bestunto, obteve ela afinal transformar a carta do abecê em uma família, em um mundo, para a existência enfezada dessa mísera criatura. 

  Ao cabo de um mês, conhecia Brás todo o abecedário. Que inauditos esforços de paciência, que sublimes intuições não foram necessárias para vencer esse impossível!  

Só Berta o poderia conseguir. A fascinação que exercia sobre o idiota era uma sorte de encanto e magia. Sua vontade movia aquele corpo, como se fosse o espírito que o animava. Brás sentia e pensava unicamente pela alma dela, que lhe transmitia as impressões no olhar carinhoso, na voz suave, no sorriso fagueiro. 

(continua...)

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