Por José de Alencar (1872)
- Por que não chega mais para o meio? Vai muito na beira do barranco!
- Ah! Também faz mal? Pode cair a ribanceira? Não é? Mas lá; se a montanha vier abaixo? Ricardo não respondeu.
- Que diz?
- Zombe a seu gosto!... Divirta-se à minha custa, contanto que deixe o “Galgo” sossegado, tornou Ricardo gracejando.
- Está bom, não quero que tenha queixa de mim.
E inclinando as rédeas, fez o “Galgo”, já apaziguado, tomar o meio da estrada.
- Está satisfeito?
- Se continuar assim...
- O senhor está prevenido contra mim. Quem sabe se não me fizeram alguma intriga? Pois engana-se, tenho um gênio de água morna.
- Não supunha, acudiu Ricardo; mas depois do que tenho visto esta manhã, posso jurar!
- Não é verdade?... Estamos quase no fim do passeio e ainda não dei um galope!
- O galope não é das piores coisas.
- Ah!... Então o galope não faz mal?
- Conforme; num cavalo manso, o galope é agradável e não tem o menor risco; mas em um animal arisco, como o “Galgo”, não convém a uma senhora.
- É perigoso? perguntou Guida com um modo cândido.
- Pode tornar-se.
- Deveras!
- Se não acredita...
- Ao contrário, acudiu Guida.
- Uma tarde destas e neste mesmo caminho esteve a atirar-se com Fábio pela montanha abaixo.
- E como escapou?
- Esbarrando contra os bois de um carro que por felicidade estava atravessado na estrada.
- Ahh!... O tal senhor “Galgo” faz dessas estrepolias!... repetia Guida afagando o pescoço do animal com a mãozinha enluvada.
De repente um sibilo cortou os ares; e o “Galgo” se arremessou no espaço como m turbilhão, no meio do qual mal se distinguia o torvelim da saia de Guida, agitada pela corrida impetuosa.
Fora o chicotinho que, vibrado pela mão nervosa, fustigara cruelmente o brioso corcel; ao passo que a menina inclinando a cabeça desdenhosamente sobre a espádua, soltara estas palavras no momento de abandonar-se ao ímpeto do animal.
- Quero ver!...
Surpreso, Ricardo olhou um instante o vulto da moça que voava, soltando aos ecos da montanha o seu mote típico:
- Hep!... hep!... hep!...
Cobrando-se logo do enleio causado pelo imprevisto arrojo, Ricardo largou rédeas a “Edgard”, que partiu à desfilada no encalço do “Galgo”, e sem dúvida o alcançaria, pois, contido pelo freio, já o curitibano moderava o primeiro ímpeto.
Mas Guida ouviu o estrupido; e voltando-se, conheceu que Ricardo a seguia e talvez a alcançasse. O chicotinho sibilou nos ares, semelhante a uma víbora que se enrosca; e o “Galgo”, alongando-se como uma flecha, devorou o espaço.
No meio daquele turbilhão, pareceu ao moço que o talhe esbelto da menina oscilava na sela, e buscou afirmar a vista, quando um grito de terror, que se escapara fremente dos lábios de Guida, cortou os ares.
Fincar esporas no isabel e dispará-lo com um tiro de canhão, foi para Ricardo um movimento maquinal, que ele executou antes de pensar.
Estendia-se por diante o lanço do caminho, que fazendo, volta na extremidade corta o cabeço da montanha, e ocorre alguma distância entre dois taludes profundos para surdir já na outra encosta da serra, no ponto chamado “Mesa”. Havia nesse lugar uma longa mesa, feita de paus toscos e ensombrada por espesso bambuzal. Talvez já o tempo a tenha consumido; há três anos ainda a vi, reparada dos primeiros estragos e já outra vez carcomida.
Quantos piqueniques não tem visto o memoroso bosque dos bambus? Que segredos não guardam em hieróglifos e datas os verdes troncos das taquaras, que a foice do trabalhador da estrada não cortou ainda para empalhar o rancho? Que banquetes dados aquela rude estiva de varas, sem toalha nem serviços de prata, mas tão opíparos de contentamento e prazer?
Passando à direita do bambuzal, alonga-se o caminho pelo lançante da montanha, e ao cabo de algumas braças derrama-se por uma pequena esplanada, que serve como de rampa ao magnífico cenário.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.