Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Anacleto não lhe disse uma palavra; deixou-se cair em uma cadeira de braços e ficou triste e meditabundo, olhando para Mariana.

O pai desconfiava da filha.

Mas haviam ficado na sala a velha Irias, Cândido e Celina.

Estiveram descansando, sem encetar a mais simples conversação durante algum tempo; os dois moços conservavam a sua melancolia silenciosa do passeio.

Irias continuava a observá-los como fizera em toda a tarde desse dia.

Até que enfim ela mesma quebrou o silêncio, dizendo:

– Continuais a estar tristes, meus filhos?

– Não, minha mãe, acudiu prontamente Cândido, estamos apenas fatigados.

– Sim... passeamos muito, disse Celina.

– E no entanto, em todo vosso passeio estivestes do mesmo modo, continuou

a velha; sabeis que essa tristeza dá muito que entender nos moços?...

A “Bela Órfã” corou vivamente; Cândido estremeceu a próprio pesar.

– Não é preciso corar tanto assim, minha boa menina. Por que estremeceste tão fortemente, Cândido?

A observação da velha aumentou o enleio dos moços.

Irias pareceu deleitar-se vendo a ambos perturbados, e foi somente quando eles conseguiram serenar-se, que ela prosseguiu:

– Ouvi-me: quando alguém vê dois jovens... um moço e uma moça, meditando tristemente, naturalmente vem-lhe vontade de compreender a causa dessa meditação; e coisa notável! quase sempre acaba por adivinhá-la.

Nada disseram os dois moços.

– Porque, continuou Irias, a alma da mocidade é inconstante, rápida e faceira; ligeira como o corpo que anima, ela se apraz de mudar a cada instante de objeto, de alimentar-se com impressões e pensamentos sempre novos e diversos. A alma da mocidade é uma borboleta no espírito. Não é assim a velhice; pertence a esta a meditação, pois que seu corpo já está cansado; e os sentidos fatigados de, por tantos anos, levar impressões a todos os instantes, mostram-se como que vagarosos por fraqueza e preguiça. A alma da velhice descansa sobre um pensamento, revolve-se dentro dele, porque também nisso lhe ajuda a tristeza, que de ordinário acompanha o velho, e que é morosa como convém ser quem medita. A juventude, repito, é naturalmente alegre, e a alegria é leve e brincadora; portanto, quando um moço e uma moça estão tristes, e meditam, quem os vê, por força os observa, porque nessa tristeza e nessa meditação deve haver algum mistério muito interessante para se estudar, e quem as estuda quase sempre adivinha.

– É noite fechada, disse Cândido levantando-se e aproximando-se de uma janela; é noite fechada; mas a lua, clara e brilhante...

– Deixa a noite e a lua, respondeu a velha cortando-lhe a palavra, e senta-te aí onde estavas para eu te dizer como é que se adivinha a tristeza e a meditação dos moços.

Deixou-se Cândido outra vez sentar, e Irias continuou:

– Sobre que é que medita um moço quando passeia com uma jovem bela e espirituosa, ou se acha junto dela sentado?... é verdade que o homem tem no coração a ambição, que o faz desejar mil coisas, que lhe pode ao longe desenhar ricos castelos, extravagantes arabescos, palácios e venturas de diversas naturezas; mas é verdade, também, que naqueles momentos parece muito mais provável que medite sobre algum pensamento que tenha bastante relação com essa moça e ele mesmo. Que pensamento será? qual é o que nesta vida põe em mais íntima relação as almas de um moço e de uma moça?... o observador, que de ordinário é um velho, lembrase do que com ele se passou no tempo do verdor dos anos, lembra-se de que não podem impunemente ver-se, e conversar, um mancebo cheio de ardor e uma donzela cheia de encantos; e finalmente o observador conhece que o moço medita sobre – amor. – A respeito da moça é ainda mais positivo.

– Senhora, disse timidamente a “Bela Órfã”, esta conversação me acanha....

A velha pareceu não ter ouvido o que lhe acabava de dizer Celina e prosseguiu:

– Em que pensará a menina de dezesseis anos?... ela não é ainda esposa para cuidar na constância de seu marido, e observar como é que ele olha, como é que ele fala às outras senhoras; ela ainda não é mãe para entregar-se toda inteira ao cuidado de seus filhos, para viver para eles de dia, e velar por eles de noite; em que pensará pois, ali sentada ao pé de um belo moço, ou com ele passeando?... pensará nos vestidos de suas bonecas?... no romance que está lendo?... meditará sobre sua lição de desenho?... sobre a cavatina que nessa noite pretende cantar?... sobre seus enfeites para o próximo serão? Mas nisso não medita a moça tristemente. Há, porém, para a jovem de dezesseis anos, que é ainda solteira, uma meditação acompanhada de tristeza, que não amarga, de melancolia que é doce como a saudade, e que se chama – amor: – sim, minha filha! sempre que a moça solteira está meditando, medita sobre amor. Vós ambos meditáveis esta tarde, e estais meditando ainda agora sobre amor.

– Senhora! exclamou Celina.

– Minha mãe! exclamou Cândido.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4647484950...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →