Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Que beleza!... é uma flor desbotada... sem aroma... disse Jônatas.
— O seu espírito...
— Espírito?... espírito de mudez: é uma estátua.
— Uma estátua... sim, meus senhores; estátua de Vênus, é o que querem dizer...
— Pois bem, tornou Jônatas, uma estátua de Vênus feita por mãos de escultor calouro.
— E o Sr. Daniel, que é tão apaixonado da cor pálida...
— Sim... aprecio, amo muito a cor pálida... como, por exemplo, a de V. Ex.ª; porém a dela...
— É transparente... diáfana... romântica...
— Repulsiva... repulsiva, disse Daniel.
— Repulsiva?...
— É uma defunta viva, minha senhora! acrescentou Jônatas.
As duas moças começaram a rir-se; e os dois cavalheiros continuariam a dizer ainda melhores coisas de Honorina, se a orquestra não os chamasse para a quinta quadrilha.
Portanto uns e outros se separaram, e um momento depois Úrsula estava junto de Raquel e Honorina.
— Então?... perguntou a Honorina.
— Agradeço-lhe muito, minha senhora: juro-lhe que foram os minutos mais agradáveis que tenho passado esta noite.
— É verdade, Úrsula; a nossa Honorina ouviu tudo com o ar mais divertido do mundo.
— E hesitará em divertir-se também com eles?...
— Oh! não!... não, minha senhora!... muito simples deve ser a mulher que não souber fazer de um homem um bobo com quem se ria!
— Bem!... bem!...
— Honorina, disse Raquel, eis um dos teus apaixonados.
— O Sr. Jônatas...
— Que te chamou defunta viva.
— Vem buscar-me para dançar com ele, tornou Raquel.
Jônatas chegou e ofereceu a mão a Raquel.
— Senhor Jônatas, disse Úrsula, apresento-lhe a mais bela aquisição de nossas assembléias, a minha nova e querida amiga, a Sr.ª D. Honorina: não concorda que é uma jovem encantadora?...
— Apareceu-nos, senhora, como um anjo caído do céu!...
Honorina levou o lenço à boca... mas foi impossível suster-se: soltou uma risada.
XIV
Fim do sarau
No fim da quinta quadrilha Lucrécia sentou-se junto de Honorina, e esperou ansiosa pelo momento de sua vingançazinha de moça. Quando a orquestra deu o sinal desejado, ela lhe perguntou:
— Com quem dança esta quadrilha, minha senhora?...
— Juro-lhe que me não lembro; eu não conheço aqui ninguém; pediram-me contradanças... disse que sim; e espero que me venham buscar.
— Oh! quisesse o céu que ficasse sentada, Honorina, eu não danço agora, e passearíamos sós.
— Raquel, eu também o desejo; mas tenho medo de o desejar em vão.
— Preferes tu passear comigo a dançar a sexta quadrilha?...
— Sim... mas...
— Pois vem cá, vamos para a toilette, e desceremos para passear, quando a quadrilha tiver começado.
— E o cavalheiro com quem me comprometi dançar?...
— Virá buscar-te, e, não te encontrando, procurará outra senhora.
— Porém, Raquel, deve-se fazer tal?...
— Ora... ora... ora... quando eu digo que tu és simples demais, Honorina!... escuta: todas nós, quando temos pouca vontade de dançar, ou não queremos fazer com algum cavalheiro, com quem a civilidade nos obrigou a comprometer-nos, apelamos sempre para a toilette, não pode haver melhor desculpa! estive concertando o cabelo... fui pregar um colchete que se rebentou... etc. etc. etc., são coisas que se dizem e que devem contentar.
— Porém, Raquel, deve-se fazer tal?...
— Deve-se, Honorina; é mesmo uma compensação; porque muitas vezes os nossos cavalheiros nos deixam ficar sentadas, entretidos e colados na mesa do écarté; ora, é muito mais natural e muito menos repreensível, que uma moça se esqueça de um cavalheiro, presa defronte do toucador, do que um cavalheiro se esqueça de uma senhora por um baralho de cartas; por conseqüência, anda... vamos... vem esquecer-te...
— Eu não sei...
— Mas para que há de deixar de dançar?... perguntou Lucrécia afetuosamente.
— Para passear comigo, minha senhora, respondeu Raquel, levando Honorina pela mão, e quase à força.
A viúva ficou exasperada com tão imprevisto contratempo; com frieza acompanhou Otávio, que a veio receber, e dançou sem prazer algum.
No entanto, Raquel apenas sentiu que a quadrilha tinha começado, tomou o braço de Honorina e disse sorrindo-se:
— Agora que já te esqueceste, e que já concertaste o teu cabelo, desçamos para passear.
E as duas moças desceram e, dirigindo-se ao terrado, foram atravessando a sala do jogo.
— Quanta gente! disse Honorina; todo esse mundo, Raquel, diverte-se jogando?...
— Sem dúvida... o que tem isso?...
— É que deve ser um jogo bem interessante.
— Sim... sim... é o écarté, jogo um bocadinho menos complicado do que o diabrete.
— Ora, Raquel!
— Como queres que te diga, Honorina?
— Então aquela gente toda...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.