Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Visto que não é provável ser ele o vigésimo senhor do paço de Gondar – respondeu a rir Francisco Costa – será artista. ― Artista!...
― Artífice é mais português. Terá uma profissão que lhe abaste à sua subsistência e à de uma família criada com pouquíssimas necessidades. Não aprenderá a ler, para crer; não saberá nada da ciência humana para entender bem o Padre Nosso, que é a ciência divina baixada até ao homem; dormirá o sono pesado do operário para não sonhar as quimeras que me fizeram a mim o motor dos teus longos infortúnios, meu pobre anjo!
― Mas hoje, filho!... – atalhou ela. – Não estou eu esquecida de tudo!... A compensação não é tão superior ao que padeci? Se Deus me der filhas, a felicidade que eu peço para elas é esta minha...
― Mas padeceste muito, Ângela... E as tuas filhas poderão ser felizes como tu sem terem padecido... – E concluiu, acariciando-a: - É preciso que elas não saibam ler Sonhos nem escrever Esperanças...
XXV O CEGO
Os olhos do general Noronha cegaram inteiramente. Os especialistas de Paris tinham capitulado de catarata negra a próxima cegueira, muito semelhante nos sintomas à gota serena.
Declinava para os setenta anos o inconsolável cego. Queria voltar a Paris, esperançado na operação; mas escasseavam-lhe forças. A velhice deste homem disciplinado por pesares de toda a espécie, deste o terrível só até ao excruciar do remorso, causava a um tempo compaixão e medo. A caquexia lenta mirrara-o até lhe secar a pele sobre a aridez dos ossos; e os glóbulos dos olhos guinavam pardacentos nas órbitas descarnadas à procura dum raio de luz.
Os parentes e amigos que ele havia repelido não o procuravam nos derradeiros anos, porque sabiam que o testamento estava feito. Os legatários, entregues à sáfara da sua lavoura, nem sequer averiguavam se o senhor do Paço de Gondar era morto ou vivo. Ninguém portanto o visitava. O velho cheirava a cadáver, e o lastimar-se dum cego exasperado afugentaria até a comiseração dos herdeiros.
O mordomo, João Pedro, é que, dia e noite, lhe dava o braço ou vigiava o ansiado dormitar. Chorava, quando o via de súbito parar, voltados para o céu os olhos, e clamar: “Meu Deus, meu Deus, dai-me a minha vista, ou mataime!”
E, em uma dessas apóstrofes à Providência divina, que lhe visitara alfim a escuríssima cegueira de alma e corpo, João Pedro disse:
― Fidalgo, vossa excelência, se quer que Deus o escute, siga a lei cristã: tenha pena de sua filha, perdoe-lhe pelo divino amor de Deus. Pode ser que depois a misericórdia de Jesus Cristo se compadeça de vossa excelência.
― E quem te disse a ti que ela era minha filha? – repetiu o cego a pergunta feita um ano antes.
― Disse-mo vossa excelência, quando ela o visitava; muitas vezes me escreveu lá para o Paço: “Manda-me boa fruta que tenho cá minha filha”. Há de perdoar-me, fidalgo; mas vossa excelência só deixou de lhe chamar filha depois que ela quis casar com um homem mecânico...
― E se perverteu... – atalhou rancoroso o cego.
― Mentiram-lhe, fidalgo; ela não praticou ação má senão a de querer ser esposa dum pobre. ― Não sabes nada, pedaço de asno. Tenho ali uma carta de minha irmã Beatriz.
― Bem sei, meu senhor.
― Sabes? quem to disse?
― A Sr.ª D. Ângela.
― Quem lha mostrou?
― Viu-a ela, quando escreveu a vossa excelência uma carta sobre a sua escrivaninha. Essa carta diz que os criados da senhora sua irmã, a quem Deus perdoe, tinham arrancado a fidalga dos braços do tal filho do sacristão. Era uma mentira de clamar vingança aos anjos. Sua excelentíssima filha, quando, desesperada, procurara o tal homem, não o encontrou, tinha saído para o Porto.
― Quem to contou?
― Vitorina, que saiu de Gondar com a Sr.ª D. Ângela, quando tinha dois anos; o próprio capelão, e todos os criados da Sr.ª D. Beatriz, que lá está onde as contas são apertadas.
― Por que não disseste isso até hoje?
― Porque vossa excelência se desesperava assim que eu começava a falar na Sr.ª D. Ângela, e depois...
― Depois o que?... Não respondes?!
― Vossa excelência começava a dizer que via a mãe da menina, e a sacudir os braços que me fazia terror.
― Está bom! Está bom! – murmurava guturalmente o velho, procurando com as mãos trêmulas a boca do criado.
E recaía na concentrada prostração que durava horas e dias.
Uma vez, o general acordou de sobressalto, por noite fora, chamou João Pedro com aflição, e disse-lhe:
― Quem anda na casa?
― Ninguém, senhor... Serão os ratos que os há nela de tamanho de leitões.
― Não mangues comigo, João!
― Ó fidalgo! Eu mangar com vossa excelência!...
― Aí anda gente... os passos e a voz são de Ângela...
― Deus permitisse que fosse ela... O senhor general estava agora sonhando, e às vezes falava em sua filha.
― Falava?
― Sim, meu senhor.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.