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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Em todos os tempos os homens de letras, maus ou bons, geniais ou medíocres, ricos ou pobres, glorioso ou ratés, sempre se julgaram inspirados pelos Deuses e confabulando intimamente com eles. A vida dos escritores, poetas, comediógrafos, romancistas, etc., está cheia de episódios que denunciam esse singular orgulho deles mesmo e da missão da arte de escrever a que se dedicam. Todos eles se deixariam morrer à fome ou de miséria, antes de transformar a sua Musa em passatempo de poderosos e ricaços. Entregaram essa função aos bufões, aos histriões, aos bobas da corte, etc.

Mesmo quando um duque ou um príncipe tinha um poeta a seu soldo, o estro dele só era empregado para solenizar os grandes acontecimentos privados ou públicos em que o duque ou o príncipe estivesse de qualquer forma metido. Se tratasse de um batizado na família, de um casamento, do aniversário da duquesa, de uma vitória ganha pelo príncipe, de sua nomeação para embaixador junto à corte de Grão-Mongol, sim! O poeta palaciano tinha que puxar a mitologia do tempo, escrever uma ode, um epinício, um ditirambo ou mesmo um simples soneto, conforme fosse a natureza da festa. Mesmo para as mortes havia a elegia com todas as suas regras marcadas na retórica e poética daqueles tempos de reis, marqueses e duques.

Esses fidalgos mesmo aceitavam de bom grado o orgulho profissional dos seus poetas attachés. Alguns destes mereciam até homenagens excepcionais, como um tal Alain Chartier, poeta francês do século XV. Conta-se que a delfina Margarida da Escócia, passando com o seu séqüito de damas e cavalheiros de honor, por uma sala em que estava cochilando o poeta, não trepidou em beijá-lo na boca diante de todo o seu acompanhamento. A mulher do príncipe que foi mais tarde o sombrio e velhaco Luís XI de França justificou o ato dizendo que apesar do desgracioso físico de Alain, a encerrar, contudo, tão belo espírito, daquela boca tinham saído tantas palavras douradas, que ele merecia aquela sua imprevista homenagem. As crônicas do tempo contam esse episódio que me parece não ter eu adulterado e, além deste, muitos outros interessantes, em que se mostra até que ponto os homens de pena eram prezados pelos poderosos de antanho, e como eles tinham em grande conta a sua missão de troveiros e trovadores.

Na Bruzundanga, até bem pouco, era assim também. A sua nobreza territorial e agrícola estimava muito, a seu jeito, os homens de inteligência, sobremodo os poetas, aos quais ela perdoava todos os vícios e defeitos Essa fidalguia à roceira daquele país era assim semelhante aos nossos "fazendeiros", antes da lei de 13 de maio; e poeta, ou mesmo poetastro, que aportasse nas suas fazendas, que lá são chamadas — "ampliúdas" — tinha casa, comida, roupa nova, quando dela precisasse, e lavada toda a semana, podendo demorar-se no latifúndio o tempo que quisesse, e fazendo o que bem lhe parecesse, desde que nada tentasse contra a decência e a honra da família. Por agradecimento, então, em dia festivo da família ou da religião, ao jantar cerimonioso e votivo, o vate recitava uma poesia inédita, alusiva ou não ao ato, e tomava uma grande e alegre carraspana.

Houve um até — uma espécie do nosso Fagundes Varela — que é ainda lá muito célebre, recitador nas salas, e cujas obras têm tido muitas edições que viveu anos inteiros em peregrinações de "ampliúda" para "ampliúda", sem saber o que era uma moeda, por mais insignificante que fosse de valor, comendo, bebendo, fumando, sem que nada lhe faltasse, a não ser dinheiro de que ele mesmo não sentia nenhuma necessidade. Tinha tudo...

Recentemente, na Bruzundanga, uma revolução social e, logo em seguida, uma política, deslocaram essa boa gente da fortuna, e muitos deles, até, dos seus domínios, que vieram a cair nas mãos de aventureiros recentemente chegados à terra ou, quando nascidos nela, eram de primeira geração, descendendo diretamente de imigrantes recentes cujo único pensamento era fazer fortuna do pé para a mão, cheios de uma avidez monetária e inescrupulosa que transmitiram decuplicada aos filhos, e logo os lindos costumes de antiga nobreza agrária se perderam. Os poetas foram postos à margem e não tiveram mais nem consideração nem desprezo. Era como se não existissem, como se fosse possível isso, seja em sociedade humana, fora de qualquer grau de civilização que ela esteja.

Aos poucos, porém, os parvenus viram bem que era preciso pôr um pouco de beleza e de sonho nas suas existências de mascates broncos e ferozes saqueadores legais. Deram em pagar sonetos que festejassem o nascimento dos filhos e elegias que lhes dessem lenitivo por ocasião da morte dos pais. Pagavam bem e pontualmente, como hoje se pagam as missas de sétimo dia aos sacerdotes que oficiam nelas, ou em outras cerimônias menos tristes.

Alguns, porém, quiseram mais ainda e, tendo notícias que os nobres feudais, de espada e cavalo de batalha encouraçado e intrépido, tinham os seus vates e trovadores, nos seus castelos e manoirs, pensaram em tê-los também, pagando-os a bom preço, a fim de que contribuíssem com as suas "palavras douradas" para o brilho de suas festas.

(continua...)

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