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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Lucrécio, julgando o companheiro triste com o resultado da expedição tratou de consolá-lo.

— Ele dá o “pistolão”... Não há dúvida!... Não se incomode!...

Bogoloff pensava pouco no fim da visita, mas ficou enternecido com o interesse do rapaz:

— Estou certo... Não penso mais nisso.

Lucrécio falou-lhe ao ouvido:

— Ele não estava em casa, Doutor. Ele tem uma francesa... A mulher não disse, mas eu sei... Vou ao Senado logo e as coisas estão arranjadas. Fique certo.

Essa ligação do senador era bem conhecida da cidade e freqüentemente os jornais da oposição faziam claras alusões a ela.

Dizia-se mesmo que a tal francesa tinha um grande ascendente sobe o ânimo de Macieira e influía decisivamente no curso dos vastos negócios encaminhados nas repartições públicas. Os homens de concessão, os agentes de casas poderosas sabiam dessa influência da “francesa” e tratavam de obter as suas boas graças mediante porcentagens grandiosas. Fuas Bandeiras conhecia-a, fazialhe ofertas de valor e contava-se que Campelo sempre a interessava nos seus reconhecimentos mal sucedidos.

Murmuravam nas confeitarias uma curiosa história de que a “francesa” fora eixo. Já vivia em “collage” com Macieira, nesse tempo deputado, fraco de recursos, mal podendo sustentar as duas casas com o subsídio. O seu fraco era jogar pôquer e, nas rodas de pôquer, conhecera Fuas Bandeira, com quem travara amizade. Os dois aos poucos, firmaram relações solidamente e jogavam clandestinamente de parceirada. Um belo dia, o amigo dissera-lhe:

— Sabe de uma coisa? O Francisco tirou a sorte grande, quinhentos contos.

— Não o conheço.

— É um rapaz inteligente, mas pouco prático... Tem que cair...

— Vai perder tudo?

— Vai, e é pena que não aproveitemos algum... Se houvesse um meio...

— Isso é bom para as mulheres, que vão aproveitar.

— Para elas só, não vão. Os outros malandros entram... Há um meio...

— Qual é?

— Não vives com a Arlete? — perguntou Fuas.

— Que tem?

— Tira-a da pensão. Alugamos uma casa mobiliada e levamos o Francisco para jogar pôquer.

— Que pode ele perder?

— Tudo, se quisermos.

— Se ele quiser namorar a Arlete?

— Deixa, e mesmo isso entra no plano.

— Ele descobre.

— Qual! Não tem prática dessas coisas e confia em todos.

A coisa assim foi feita. Alugaram uma casa mobiliada luxuosamente. Arlete figurou como amante de um terceiro sócio e o ingênuo perdeu no jogo bem a metade da sorte grande, enquanto bebia o olhar da francesa. O lucro foi distribuído proporcionalmente com todo o rigor comercial.

Macieira prosperou e foi fazendo a sua carreira na política e nos arredores da política: gorjetas em concessões, advocacias duvidosas e o mais semelhante.

Essa pequena anedota poucos conhecem, mas a sua ligação era quase pública.

Arlete ficou na vida do senador como um amuleto de felicidade; e a família a teve do mesmo modo, conformando-se a mulher com a existência da francesa nos hábitos do marido.

Macieira era insinuante, jeitoso, tenaz e prestativo e, com a patrulha avançada de Arlete, conseguia tirar da política o que esta não devia dar.

O caso da venda da Estrada de Ferro interessava à francesa, mas Macieira que pedira votos não dava a transparecer nenhum interesse. De resto, havia tantos empenhados no caso que não valia a pena gastar energia. Arlete, porém, não pensava do mesmo modo e não cessava, com o auxílio de Fuas Bandeiras, de trabalhar para que o Brasil se educasse na iniciativa particular, como dizia o jornalista.



(continua...)

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