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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- De certo, porque é preciso muito dinheiro para comprar o luxo com que a senhora se habituou.

- Bem, volveu ela; já não precisa vir comigo. Adeus, Só lhe peço um obséquio...

- Qual?

- Vá amanhã à minha casa depois do meio-dia- Fazer o que?

- Buscar a resposta do que acabou de me dizeragora. Vai? - Vou. Adeus.

Leonília saiu. meteu-se no carro e Teobaldo ainda ficou no hotel, a fumar charutos e a beber, multo enfastiado de sua vida.

XI

Resolveu não ir, mas no dia imediato, quando deu por si, estava defronte da casa de Leonília.

Tencionava não entrar, mas uma grande confusão de vozes que vinha das salas, prendeu-lhe a atenção.

- Que diabo significa isto? pensou ele. Dir-se-ia que fazem leilão em cima.

Pelo corredor viam-se entrar e sair negros e galegos carregados de móveis; ao passo que um formigar de homens sem bigode, cabelo curto, de jaqueta, sem gravata e sem colete, enchia todos os aposentos da casa.

E" um leilão! não há dúvida!... considerou o rapaz, subindo até ao primeiro andar, e o seu raciocínio foi confirmado logo pela presença de um sujeito que, de martelo em punho, apregoava o preço dos móveis a um grupo de arrematantes:

- Vinte mil réis pelo espelho! É de graça, meus senhores! Vinte e cinco mil réis! Ninguémdá mais?.

Teobaldo, com esta música a perseguir-lhe os ouvidos, atravessou a sala e depois os quartos, até encontrar o criado que o recebera naquela noite do Lírico.

- Ah! é o Sr. Teobaldo?

- Sim, disse este.

- Aqui tem esta carta.

O rapaz tomou a carta, abriu-a e leu:

Mudei-me para Santa Teresa; agora já não tens razão para fugir de mim; espero-te, não te demores.

Tua LEONÍLIA

Vinha escrito o nome da rua e o número da casa.

Teobaldo sem ânimo de entestar com as idéias que lhe trouxe a leitura dessas poucas palavras, desceu à rua e, quase que maquinalmente, foi seguindo a indicação do bilhete. Chegou às três horas ao lugar marcado; era uma casinha nova, muito modesta e pequenina, escondida entre meia dúzia de árvores e coberta de trepadeiras, que lhe davam um aspecto encantador.

Ele atravessou o pequeno jardim e bateu.

Leonília veio em pessoa abrir a porta.

Não parecia a mesma, tal era a transformarão porque passara; até a sua própria fisionomia parecia outra.

Trazia um singelo vestidinho de chita, apertado à cintura, que mal deixava perceber uma pequena parte do colo; os braços, porém, mostravam-se livres por entre a largura das mangas e o cabelo, enrodilhado sobre a nuca e seguro por um simples pente de tartaruga, já lhe não caía na testa como dantes, mas ao contrário dividia-se-lhe em dois bandós naturais fazendo ver uma fronte cor de mármore, cujos sutis reflexos de ouro mais pálida a torravam.

Por únicas jóias trazia ao pescoço a medalha que lhe dera Teobaldo e no dedo anular da mão esquerda uma aliança de casamento; em vez de caprichosos sapatos de peito aberto e grande salto, que ela até aí usava, tinha agora uma honesta botina, preta, de duraque, apenas guarnecida por um laço de fita da mesma cor.

O filho do barão, ao vê-la assim tão outra, ficou longo tempo a contemplá-la. perguntando com o gesto que significava aquela transformação.

Ela, em resposta ao pensamento dele, sorriu e disse, indo colocar-se-lhe ao alcance dos lábios:

- Estás satisfeito?

- Eu?

- Sim, creio que não poderás dizer agora o que disseste ontem.

- Mas tu és doida?... Não te compreendo, filha.

- Isto quer dizer que em resposta à tua frase de ontem, resolvi separar-me de tudo que me prendia ao passado; vendi o carro, a mobília, as jóias, as roupas, e, com o produto dessas coisas, suponho que terei um pequeno fundo de reserva para o dia em que me abandonares.

E passando-lhe o braço no ombro:

- Aqui nada há que te possa fazer corar!... Nada disto foi pago ainda e não o há de ser sem ordem tua; também é tudo tão pouco que não tens que recear pela despesa...

Ficaram ambos calados por um instante.

- Vem ver a casa comigo, disse ela afinal, puxando-o brandamente para fora da pequena sala. É um verdadeiro ninho de noivos pobres... Aqui tudo é simples quanto pode ser: mobília americana, louça de família... Vês?... tenho até uma máquina de costura...

Teobaldo olhava para tudo aquilo, como se assistisse à representação de uma comédia; afigurava-se-lhe que, uma vez caído o pano do teatro, Leonília tornaria logo ao primitivo estado.

- Então? perguntou esta, - não me dizes nada? Ficas assim, mudo, como se nada disto te interessasse?.

- É que ainda não voltei a mim, filha. Estou pasmo!

- Pois então prepara-te para ouvir o mais extraordinário: do princípio do mês que vem em diante vou trabalhar em casa do Gabardan.

- Que Gabardan?

- Aquele cabeleireiro da rua Direita.

- Tu?

(continua...)

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