Por Aluísio Azevedo (1891)
— A vossa comissão, cavalheiros, está terminada. este dinheiro será discretamente distribuído pelos necessitados, e eu pedirei a Deus pela alma de quem lhes envia a esmola...
O conde e Artur Bouvier fizeram as suas despedidas. Ângelo foi
acompanhá-los até à porta, e depois recolheu-se ao quarto, colocando o cofre sobre a mesa.
Despejou-o. O conteúdo elevava-se à quantia de cinqüenta mil francos em várias espécies. O pároco separou logo algumas placas de ouro e prata, para nesse mesmo dia principiar a distribuição de socorros.
Oh! ele, sabia melhor que ninguém aonde aquele dinheiro deveria encontrar o seu destino!... Quantas vezes, pensando em certas desgraçadas famílias de jornaleiros, reduzidas à fome pela poste, não chorou amargamente por nada mais de seu ter para lhes dar?... Quantas vezes não se privou do mais que restritamente necessário, para que não faltasse o leite a um desgraçadinho a quem já faltava mãe?... Quantas vezes não levou a sua esfarrapada batina à casa dos ricos do lugar, e não lhes estendeu a mão, esmolando para os que choravam de penúria e de frio?... Quantas vezes não se privou dos lençóis da cama, para cobrir com eles o corpo dos que gemiam na enxerga nua?...
Sim! Aquele dinheiro ia ser manancial de consolações!... Alzira, se durante a vida cometera muitos crimes, praticara na sua última hora uma ação boa lembrando-se dos desamparados da fortuna.
Mas Ângelo, ao repor as cédulas no fundo do cofre, notou que um longo fio de cabelo louro envolvia-se nos seus dedos.
Tomou-o pelas extremidades e ergueu-o até à altura dos olhos.
Era sem dúvida um cabelo de Alzira!... considerou ele, perturbando-se. Era um triste e perdido raio de um sol que para sempre se apagara!...
E deteve-se a fitá-lo, embevecido de saudade.
Oh! por que Deus fizera assim longos os cabelos da mulher?... Por que lhos dera tão grandes e tão abundantes, se ela já não precisava deles, como outrora a Eva no Paraíso, para esconder a nudez de seu pudor?...
E continuava a fitar o tênue fio de ouro, perdido num dédalo de cogitações, que o arrebatavam para o mundo ideal das suas loucuras. Mas um sopro de brisa entrou pela janela do jardim e arrebatou-o dos dedos.
Ângelo acompanhou-o com a vista. O dourado fio de cabelo ondeou no ar, espreguiçando-se, e subiu ainda, para depois voltar de novo lentamente, até ir cair afinal sobre os brancos pés da imagem de Maria.
O pároco não se animou a reavê-lo, nem enxotá-lo daquele sagrado asilo.
Quem saberia, pensou ele, se Alzira, que já não tinha lábios, nem olhos, para suplicar, não houvera, do fundo do seu eterno desterro, mandado um fio dos seus cabelos transmitir à Virgem o voto do seu arrependimento?
E voltou à mesa, assentou-se, e, tomando o cofre entre as mãos, começou a considerá-lo atentamente. Era um lindo objeto de luxo, uma boceta de ébano com incrustações de ouro, e guarnecida de artísticas miniaturas em marfim, que representavam assuntos mitológicos.
Em cima, na tampa, havia o nome da cortesã, cercado de flores e borboletas.
Ângelo continuou a admirar o bonito estojo, voltando-o de todos os lados, abrindo-o e fechando-o repetidas vezes.
Mas de repente, estremeceu e repeliu-o, torcendo o rosto para não vê-lo.
Tinha descoberto, entre um grupo de anjinhos e cupidos cor-de-rosa, um pequeno oval de meia polegada com um delicadíssimo retrato de Alzira, primorosamente trabalhado, e de uma semelhança inexcedível.
Não quis vê-lo; voltou as costas ao cofre. Mas seus olhos instintivamente procuravam a formosa miniatura.
E o mísero compreendeu e pressentiu que aquele retrato, era mais um inimigo que lhe invadia traiçoeiramente o espírito.
CAPÍTULO IX
Misérias do coração
O resto desse dia passou-o Ângelo em piedosas visitas aos pobres de Monteli. Só ao cair do sol tornou à casa, prostrado de fadiga e torturado pelas suas favoritas agonias.
Salomé trouxe-lhe o jantar, em que ele, como de costume, mal tocou, para recolher-se logo às suas orações defronte do altar da Virgem.
Às sete horas deitou-se cansado e adormeceu logo, precipitando-se no sonho, como se acordasse da vida. Alzira esperava lá por ele.
— Ah! enfim! exclamou ela, abrindo-lhe os braços e apresentando-lhe os lábios. Tremia com a idéia de que te demorasses! ... Não imaginas como estava impaciente por tornar a ver-te!... A imobilidade a que me vejo condenada durante as horas do dia, é para mim indefinível tormento!... Maldita seja a sepultura!...
— Mas eu me não demorei!... observou Ângelo. Adormeci pouco depois de anoitecer... Não seriam mais de sete horas quando...
— Tens razão. Não percamos tempo! Partamos. Os cavalos chamam-nos à montaria, escarvando a terra ...
— Onde vamos nós?...
— A um lugar esplêndido. Sigamos!
Montaram e partiram desenfreadamente como na véspera, varando a alma trevosa da noite.
Galoparam! Galoparam!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.