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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Oh! o senhor deve estar plenamente vingado!... volveu o outro; salvou minha filha, e faz agora por também me salvar a mim... Fui mau! fui bastante mau; hoje, porém, arrependo­me de tudo, e principalmente de não haver protegido o casamento de seu enteado com Ambrosina... Tenho medo de morrer em semelhante situação!... Eram­me necessários mais alguns anos de vida, para poder deixar minha família amparada... O doutor não faz idéia do péssimo estado de meus negócios!

— Quem, ou o que, lhe fala agora em morrer, homem de Deus?..

— Nem eu sei!... mas sinto­me mal... falta­me já a memória... faltam­me até as palavras!... nem me lembra o que fiz hoje! Repare como tenho a língua presa... Só me lembro das maldades que cometi!...

Gaspar animava­o, dizia­lhe palavras consoladoras; mas o doente sacudia a cabeça com desânimo e fechava os olhos, gemendo.

Havia um grande mal­estar por toda a casa. A própria Emília, sempre alegre e brincalhona, nada conseguia com o seu bom humor. Gabriel falava em retirar­se; sentia­se já perfeitamente bom e não lhe convinha ficar ali.

Os olhos tristes do moço encontravam­se constantemente com os de Eugênia, e os dois ficavam a cismar.

Um dia, em que ela se encontrou mais desconsolada, Gabriel perguntou­lhe:

— O que tanto a aflige, minha amiguinha? o que a faz tão muda e pesarosa?...

— Para que me pergunta? disse ela; se não me pode dar nenhum remédio?... Meu gênio foi sempre este!... Nunca fui de expansões... Olhe, se promete visitar algumas vezes minha família, pode ser que, com a convivência, venha a contar­lhe os meus segredos; mas, por agora, não lhe direi uma palavra...

O moço ficou a pensar. Que estranho era o coração daquela rapariga!... Que mistério poderia haver naquela alma quase infantil?...

E Gabriel afinal partiu.

Ambrosina, ao se despedir­se dele, estendeu­lhe a mão expansivamente e disse­lhe, arrependida e cheia de mágoa:

— Não me fiquei tendo ódio... seja meu amigo; compreenda que sou eu menos culpada de tudo o que se passou entre nós dois!...

— Ah! se a senhora me amasse! se me houvesse compreendido!... exclamou o desgraçado.

— E pensa que não?... Só eu sei o que sofri por sua causa!...

Gabriel segurou­lhe as mãos.

— Então ainda me ama?! Responda!

— Mais tarde o saberá... por enquanto, ausente­se de mim... Adeus.

E fugiu.

Gabriel meteu­se lá fora no carro com o coração a saltar­lhe num grande alvoroço. Depois das palavras de Ambrosina, tudo em volta dele se alegrou e sorriu.

E pelo caminho de casa ia fazer cálculos de felicidade, mas a sinistra figura do doido aparecia­lhe nos sonhos como um demônio a cabriolar no paraíso.

— Ora! concluía ele; o essencial é que ela me ame!...

E estalava de contentamento quando chegou à casa.

No dia seguinte, o comendador expirou. Porém antes de morrer, encarregou a Gaspar de obter do pobre Alfredo o perdão do muito mal que lhe havia feito; e pediu ao marido de Ursulina, o esplenético negociante inglês que admitisse o infeliz como empregado no seu escritório comercial.

A morte do comendador dissolveu o grupo que se tinha formado em casa dele. O inglês e a família retiraram­se; Gaspar fez o mesmo, e a viúva mudou­se pouco depois, com a filha para o palacete da cidade.

Tratou­se do inventário e, com pasmo geral, chegou­se à conclusão de que o comendador, tão opulento em vida, nem só não deixara bens, como ainda ficara devendo duzentos contos de réis à praça.

Os credores caíram logo sobre a viúva e lançaram mão do que puderam. Só lhe ficou uma casinha no Engenho Novo, que havia sido comprada em nome da filha.

Mãe e filha mudaram­se para lá.

Ambrosina, porém, não se queria conformar com semelhante miséria.

— No fim de contas, argumentava ela, sou casada com um homem remediado de fortuna e não devo levar esta vida quase de privações. Não tenho culpa de que meu marido enlouquecesse. O curador fazme dar uma mesada, que mal chega para acudir às primeiras necessidades! Sebo!

E parecia que ia repetir a frase do Reguinho.

A mãe ouvia­a com um ar tolo; tudo aquilo para a pobre mulher era negócio complicado.

Todavia, Gabriel, por esse tempo, freqüentava a família do Sr. Windsor.

Windsor é o negociante inglês, marido de Ursulina. Este inalterável homem tomara afeição a Gabriel, e via com bons olhos a inclinação de sua filha Eugênia pelo rapaz.

Gabriel aparecia­lhe regularmente duas vezes por semana, para o chá. Fazia­se então palestra à roda da mesa ou fazia­se música no salão.

Eram aqueles serões tranqüilos e confortadores. Eugênia, às vezes, cosia ou bordava, e Gabriel assentava­se ao lado dela, esquecido a olhar para o movimento da agulha ou para os olhos da rapariga, abaixados sobre a costura.

— Creio que já lhe mereço alguma confiança, disse­lhe ele em uma dessas vezes; por que não me revela os seus segredos?...

(continua...)

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