Por Bernardo Guimarães (1883)
Obrigado, Frederico ; sei que me tens sincera amizade, e que embora na turba dos outros sejas tão caçoador como outro qual quer, tens caracter sisudo e sensivel, e não zombas dos soffrimentos alheios. Por isso não faço a menor duvida em contar-te a causa deste aborrecimento e tristeza, que ha tempos me acabrunha.
— Pois bem; vamos a isso ; desembucha tudo sem receio. Sou um pouco menos frivolo e leviano do que nossos companheiros, e saberei guardar segredo, si o exiges.
— Não será máo; os gracejos indiscretos, as caçoadas cynicas no estado em que me acho, soão-me muito mal.
— Portanto, emquanto fumamos um pouco, — disse Frederico, offerecendo um charuto a seu amigo, — váe-me desfiando o teu drama, que seguramente não deixará de ser algum idyllio amatorio.
Este dialogo passava-se entre dois estudantes do quarto anno juridico de S. Paulo. Tinhão acabado de jantar e ainda se achavão á mesa em casa de Frederico, que morava só no alto da Consolação, um dos bairros mais isolados e solitarios da cidade. Era isto cerca de dois mezes antes dos interessantes successos, de que demos conta nos dois ultimos capitulos desta historia. Os dous quartanistas erão da provincia de Minas, e amigos intimos de longa data, não dessa amizade fundada em relações passageiras e de occasião, que frequentemente se dão entre estudantes, as quaes tanto têm de francas e sinceras, como de pouco duradouras ; são laços que não se rompem, mas que com o tempo e ausencia acabão por desatar-se insensivelmente.
Os dous mineiros consagravão-se reciproca. mente uma affeição solida, firmada pelo tempo desde os estudos collegiaes e fundada nas bellas qualidades que cada um delles reconhecia com prazer em seu amigo. Frederico era um mancebo de alta estatura, louro e de olhos castanhos.
A indole bondosa, a lisura e franqueza d'alma transluzião em sua physionomia sempre pla cida e expansiva, como seu nobre coração, sobre o qual as paixões tumultuosas da juventude jamais tinhão conseguido exercer imperio absoluto. Lia-se em sua fronte espaçosa e bem conformada o bom senso, o juizo recto, a intelligencia luminosa, sobre a qual a imaginação podia bem exercer sua influencia encantadora, mas nunca poderia dominal-a. Parecia mais um bátavo, descendente de algum dos companheiros de Mauricio de Nassau, do que um brazileiro de pura raça latina.
O outro apresentava um typo inteiramente diverso; era um verdadeiro filho do Brazil e da provincia de Minas ; assemelhava-se a um napolitano.
Estatura regular, cabellos e olhos escuros, tez clara e levemente colorida, olhar scintilante e profundo revelavão nelle imaginação viva, natureza ardente e apaixonada.
Tanto um como outro erão tidos em conta de mui distinctos estudantes por sua intelligencia, assiduidade e bom comportamento, considerados pelos lentes e estimados pelos collegas.
Entretanto Carlos ha dous mezes começara a dar muito más contas de si, falhava muitas vezes, balbuciava a muito custo a lição, quando era chamado, e ás vezes se excusava allegando incommodo de saude, que sua progressiva magreza e deperecimento não deixavão de justificar. Seus companheiros notavão a grave e profunda alteração, que se ia operando no physico e moral de Carlos, alteração que, a não ser devida a alguma affecção do organismo, não podia ser attribuida sinão a soffrimentos moraes. Quando lhe inquerião o motivo de tão estranha modificação em todo o seu ser, dava respostas evasivas, que em nada satisfazião a curiosidade dos collegas.
Frederico era o que mais se affligia com o lastimoso estado de abatimento em que via o amigo, e foi com o proposito de obter delle uma declaração confidencial e franca, que nesse dia o convidou a jantar em sua casa a sós com elle.
Carlos não poude esquivar-se á solicitação cordial e sincera de seu amigo, e tendo accendido o seu charuto começou assim :
—Depois que moro na rua do Tabatinguera, adquiri um conhecimento quasi mysterioso, que tem exercido, e ha de exercer sempre, eu bem o presinto, poderosa influencia sobre o meu destino. Além da casa em que moro, deves ter reparado que ha outra casa baixa, separada da minha por um terreno vazio, que não pertence nem a um, nem a outro predio. Nessa casa habitada por um senhor Bazilio, mora uma creatura encantadora, dotada de tantas perfeições, tão cheia de attractivos, que são capazes de transtornar a cabeça mais firme, e inflammar o coração mais empedernido.
Ah! já ouvi fallar nessa menina, — atalhoa Frederico, —- dizem que é um prodigio de belleza ; mas apenas é visivel por momentos, e esconde-se como Diana entre os véos do mais timido recato.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.