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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Não tenho conhecimento do contrato feito pelo governo com o Sr. Fialho; anima-me, porém, a confiança de que este nosso compatriota desempenhará cabalmente a tarefa de que se encarregou, e de que nos dará, com o valioso concurso do excelente jardineiro o Sr. Glaziou, um belo Passeio Público.

Quero dar algumas idéias do que se projeta fazer, e se está com atividade realizando.

A planta apresentada ao governo, e por este aprovada, representa um jardim no gênero inglês, hoje admitido em todo o mundo como o mais natural, o mais livre, e que produz mais agradáveis e completas ilusões.

O antigo sistema de alamedas em linha reta e de maciços regulares e uniformes é completamente abandonado.

O cordel e o compasso não são consultados. O olhar do artista e a ciência da botânica são os grandes instrumentos deste trabalho. Esse olhar que nivela o terreno, destruindo-lhe as ondulações, que cria nele claros-escuros, divaga muitas vezes por muito longe dos limites fixados ao lugar da sua obra; anda procurando perspectivas louçãs e encantadoras; cobiça os panoramas longínquos, apodera-se deles, liga-os pela arte ao jardim que deste modo parece muito maior, ilimitado mesmo.

O jardineiro-paisagista é rival do paisagista-pintor. Este faz representar em sua tela de algumas polegadas o aspecto de um terreno imenso, vastas planícies entrecortadas de rios, alcantilados montes, vales sombrios, e tudo enfim quanto a natureza criou. Aquele corta, levanta, cava o terreno entregue à sua perícia, planta e semeia onde convém cobrir o solo, ou onde é conveniente esconder o triste aspecto dos sítios; copia em sua obra e obra as obras da criação, aproveita ou improvisa rios e lagos, montes, outeiros, grutas e bosques; mas em sua cópia tudo é palpável, tudo tem a sua vida especial, tudo brilha com as próprias fintas da natureza.

Não pensem que estou poetizando: repetida a lição de um mestre na matéria, e em breve teremos um exemplo deleitoso dessas idéias na reforma no Passeio Público.

Os três pensamentos que devem apresentar-se dominando esta obra são a escolha de árvores e plantas formosas e raras; o cuidado de reunir no limitado recinto do jardim diversos encantos da natureza reproduzidos embora em ponto pequeno; e enfim, a observância esmerada das leis da perspectiva na disposição das árvores, de modo que entre elas os olhos do observador vão espraiar-se ao longo e gozar ainda muito além dos limites do Passeio os panoramas admiráveis de sítios pitorescos que aformoseiam a cidade do Rio de Janeiro.

Logo à entrada do jardim, em frente ao portão, se estenderá um grande tabuleiro de relva semeado de árvores e ornado de um pequeno tanque com um repuxo.

Ruas em linhas curvas e de extensões variadas se desenvolverão por todos os lados, e maciços multiplicados, diversos no tamanho e na forma, darão o encanto da variedade, ostentando ainda grande riqueza de árvores ora em grupos, ora isoladas.

Ao lado esquerdo ver-se-á sobre um outeiro um quiosque ou pavilhão rústico, destinado às bandas de música.

Ainda do mesmo lado se mostrará um rochedo artificial, do alto do qual se precipitará uma torrente d’água que alimentará um rio tortuoso, que irá formar ao lado direito do jardim um lago com suas ilhotas habitadas por cisnes.

Não muito longe do rochedo da queda d’água, se lançará sobre o rio uma ponte rústica, e em frente do outeirinho dos jacarés de mestre Valentim, uma outra ponte; essa, porém, de mais custoso trabalho e no estilo Renascença, ou de ferro, e em todo o caso, imponente.

Ao lado direito erguer-se-á um pavilhão imperial.

Algumas estátuas, um lugar de repouso ornado de um rico vaso de Medicis e de plantas estimadas; uma abóbada vegetal, uma gôndola veneziana no lago, bancas de repouso, tabuleiros de relva, e muitas outras obras virão recomendar a reforma do nosso Passeio Público.

Muito me alegra ter ainda de acrescentar que o tanque e o outeirinho dos jacarés será conservado tal qual existe. Apenas se arrancaram dentre as pedras algumas plantas ruins que ali vegetam inconvenientemente. Não sei se foi o governo ou o Sr. Fialho que teve essa boa idéia e que nos livrou de testemunhar um crime de lesa-arte; sei, porém, que M. Glaziou, o inteligente e hábil jardineiro, tece os maiores louvores àquele bem acabado trabalho do nosso Valentim, e especialmente admira o primoroso grupo dos jacarés.

Os tanques das duas pirâmides terão de ser melhorados; estas, porém, ficarão intactas e continuarão a mostrar-se como dantes, consagradas Ao amor do público e À saudade do Rio.

As obras da reforma do Passeio Público vão sendo executadas:

com diligência e boa vontade, e nas escavações feitas para se reparar o leito do rio notou-se que, depois de algumas camadas de areia e de barro, se encontra uma terra cujo aspecto e natureza indicam bem claramente que é o fundo da antiga lagoa do Boqueirão.

(continua...)

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