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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

D. Guilhermina era bonita, e tinha consciência de sua formosura, que estava então no esplendor. 

Teria vinte e oito anos; de desenvolvimento tardio, como uma dália a que faltasse por algum tempo o sol, essa idade que para outras começa a desfolha, para ela, depois de dez anos de casamento, era a mais brilhante floração. A tez aveludada de seu colo; o fresco e delicioso encarnado das faces; olhos rasgados como duas favas de baunilha e afogados em cristal de leite; a oca, talvez grande, mas primor de graça, cheia de seduções irresistíveis; e as formas encantadoras do talhe modelado com a maior correção e harmonia; tudo nela estava respirando o viço dessa plenitude da mocidade que é o apogeu da mulher. 

Como era natural, essa beleza, tão reputada nos salões, supôs-se o objeto de uma admiração ardente, e talvez mesmo já envolta em sentimento mais terno. Qualquer dúvida desapareceu no espírito da moça, apenas notou a expressão de desgosto que se derramava na fisionomia franca de Ricardo, ao surpreender um requebro ou ademane namorado de Fábio. 

Desde então procurou o olhar de Ricardo e encontrando-o tentava retê-lo com um lânguido volver do seu. Uma vez demorando-se muito tempo em aspirar o perfume das violetas com os olhos fitos no mancebo, deixou depois cair a mão que segurava o ramo, e este escorregou ao chão. 

O chapelinho de sol, faceiramente inclinado, ocultou esta mímica às acesas vistas de Fábio; e um relancear rápido e vivo indicou a Ricardo a queda do ramo de violetas. 

O primeiro assomo do advogado foi ditado pela cortesia; as rédeas colhidas de pronto sofrearam a marcha do animal. Mas logo após retraindo, mostrou-se de todo alheio ao incidente; nem suspeitou sombra de provocação, onde só via mero acaso. 

D. Guilhermina porém parara de repente procurando em si um objeto que lhe faltasse.

- O que é? perguntou Fábio solícito. Perdeu alguma coisa? 

A resposta demorou-se um instante à espera que Ricardo se voltasse; mas este afastava-se.

- Meu ramo! 

- Caiu sem dúvida; vou procurá-lo. 

Fábio retrocedeu à cata do ramo; mas já o Benício o tinha apanhado, e para não machucá-lo, o trazia a pé, puxando a mula. 

- Faz favor! Disse Fábio. 

- Nada, meu senhor; quero entregá-lo à dona. 

D. Guilhermina que esperava parada, o recebeu, mui contrariada. 

- Pode seguir, Sr. Benício, disse Fábio que desejava aproveitar a ocasião de ficar só com a moça. 

- Não se incomode! Talvez D. Guilhermina tenha outra vez necessidade de meus serviços. 

A mulher do conselheiro percebendo a impaciência de Fábio e receando que ele tivesse algum desaguisado com o pachorrento Sr. Benício, pôs o cavalo a meio galope. 

- Viva!! disse o moço contentíssimo por livrar-se do sujeito. 

Mas o homem, soltando o chouto à mula, aí estava rente com eles e os acompanhou até apanharem os outros. A Guida não escapara a provocação de D. Guilhermina, e vendo Ricardo render-se no primeiro assomo, sorriu. Era a ocasião de subtrair-se à vigilância contínua que o dono do “Galgo” exercia sobre ela.

- Bravo, D. Guidinah!... 

- Nem a rainha do ar. 

Estas exclamações do Bastos e Guimarães festejavam as escaramuças com que a moça se divertia à beira do profundo despenhadeiro. 

Voltando-se, viu Ricardo as curvetas do “Galgo”, e adiantou-se: 

- Confesso-lhe que estou arrependido da troca! Pensei que a senhora não fosse tão... 

- Tão estabanada!... Pode dizer!... acudiu a moça. 

- Queria dizer imprudente, apenas. 

- Muito obrigada! retorquiu com um sorriso de gentil motejo. Tenho eu culpa das estrepolias de seu cavalo? 

- Mas eu preveni-a do quanto ele é árdego! Não suporta certas birrazinhas que a senhora costuma fazer a “Edgard”! É um caipira, como eu. 

- Está o senhor também querendo fazer o “Galgo” pior o que é! Não o acho tão feroz como o pinta o dono! 

- Em todo o caso eu lhe peço, não o irrite!... disse Ricardo alisando a anca do animal para acalmá-lo.

- Eu estou bem quietinha, vê! disse a moça com as mãos cruzadas sobre o gancho do selim. Ainda quer mais? 

acrescentou atirando a Ricardo um sorriso cheio de malícia. 

(continua...)

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