Por José de Alencar (1875)
O capitão-mór Campelo estava, como de costume, sentado em uma cadeira de alto espaldar, forrada de couro e colocada no largo patamar, que se prolongava de um e outro lado pelo alicerce, como um passeio.
O fazendeiro, terminado o jantar que naquele tempo era ao meio-dia, fazia regularmente a sesta até passar a fôrça do sol, como ainda hoje se usa pelo sertão. Depois do que vinha sentar-se alí, no pórtico da casa, onde já se achava a sua cadeira senhorial, trazida por um pagem.
Abrigado pela sombra do edifício que ia cair sôbre o terreiro, entendia com os negócios da herdade e provia a tudo quanto dependia de suas ordens. Se era preciso, montava a-cavalo, e transportava-se ao lugar onde se fazia necessária sua presença, quaquer fosse a distância, e devesse embora voltar alta noite ou pela madrugada.
Em tudo isto, porém, não se afastava uma linha daquela gravidade metódica e pausada, que formava a compostura de sua pessoa e que êle julgava um dever imprecindível de sua importância e riqueza.
Nessa tarde logo ao sentar-se, despediu o capitão-mór o pagem para chamar a toda pressa o Inácio Góis, que servia-lhe de vaqueiro da fazenda desde a morte do Louredo, pai de Arnaldo, o qual tivera por muitos anos êsse emprêgo.
Chegou o Inácio Góis quando o fazendeiro acabava de dar ordens a Manuel Abreu, o feitor.
— Que notícias nos traz da novilha, Inácio Góis? perguntou-lhe o capitão-mór de chofre.
— Qual, sr. capitão-mór, a Bonina da senhora doninha? disse o Inácio Góis, embaraçado.
— A Bonina, sim; desde ontem que desapareceu e até agora ainda não deu conta dela. Que vaqueiro é um, Inácio Góis, que não sabe por onde lhe anda o gado?
— É uma coisa que não se explica mesmo, sr. capitão-mór. Já batí todo êste matão, e nem sinal de novilha. Nunca se viu uma coisa assim. Faz a gente imaginar!…
— Não tem que imaginar, Inácio Góis; se amanhã cedo a Bonina não estiver no curral, ficamos sabendo que nosso vaqueiro só presta para curar bicheiras.
O Inácio Góis abaixou a cabeça e retirou-se humilhado em seus brios de vaqueiro pelo remoque do fazendeiro. Outros, mais graduados e mais atrevidos do que êle, não ousavam afrontar o senho do mandão de Quixeramobim.
D. Flor tinha assomado ao lume da porta, ainda a tempo de ouvir estas palavras.
— Não te aflijas, disse o fazendeiro voltando-se para a filha; que a Bonina há de aparecer até amanhã.
— Se Arnaldo estivesse aquí, já êle a teria descoberto, replicou a menina com um ligeiro enfado.
O capitão-mór ficara impassível, como se não ouvisse as palavras da filha e entre elas o nome de Arnaldo, cuja revolta provocara por vezes nos últimos dias as explosões de sua cólera.
Um fenômeno singular se havia operado no espírito do dono da Oiticica. A mesma estranheza do fato inaudito de uma desobediência formal a suas ordens, atuando em sentido inverso, desvanecera a primeira e violenta impressão produzida pelo acidente.
Essa anomalia explica-se mui facilmente; era uma reação. Passada a comoção, o capitãomór tornara ao seu natural, e na soberba do mando absoluto, nada mais natural do que abstrair-se da recordaão importuna, a ponto de ter por impossível o acontecimento.
Assim nos dias anteriores evitara toda a alusão ao caso inexplicável; e quando agora a filha pronunciara o nome de Arnaldo, êle já se tinha por tal modo imbuído da incredulidade, que o ouvira sem abalo.
D. Flor admirou-se dessa indiferença, a qual era para surpreender após o formidável arrebatamento que três dias antes excitara no velho a última evasão do sertanejo. O límpido olhar da donzela buscou no semblante paterno a significação daquele gesto, e não achou alí senão a calma e serena expressão da fôrça em repouso.
O capitão-mór erguera-se um instante, e observava além na várzea, que dilatava-se em volta da encosta, alguma coisa, que lhe excitara a atenção.
Desceu então a donzela ao terreiro e foi sentar-se nos bancos à sombra da oiticica, onde a acompanhou Alina, enquanto D. Genoveva tomava o seu lugar em uma cadeira rasa ao lado do marido.
O Agrela, que desde o aparecimento do fazendeiro na porta, aproximara-se como de costume para estar Às ordens, conversava com o Padre Teles, a alguma distância, recostado ao socalco do alicerce.
Assim completou-se o painel de família que ordinariamente, fazendo bom tempo e não sobrevindo incidentes, observava-se no terreiro da fazenda da Oiticica, à primeira hora da tarde, logo depois da sesta, quando o sol ainda forte não permitia o passeio aos vários pontos da herdade.
D. Flor parecia triste. A expressão já séria de seu formoso perfil estava nessa ocasião ainda mais nítida e correta. Era sempre assim. Quando a alma assumia-se em profundo recolhimento, as gentís feições, que ela animava em sua expansão, apresentavam uns tons puríssimos, como se fossem cinzeladas no mais fino jaspe.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.