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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Mas, sendo por ora infrutíferos todos os seus esforços, conhecendo que até hoje nenhuma impressão tem feito no coração da modesta virgem, o senhor foi procurar uma coisa que explicasse essa indiferença de Celina, e lançou os olhos sobre um mancebo honrado, nobre, cheio de recomendáveis qualidades, que não nos fez ainda um só momento arrepender de o haver recebido em nossa casa. E julgando que esse moço é o único obstáculo a seus pretendidos triunfos, ousa vir aqui exigir de mim que lhe feche as portas de nossa casa! não é isso? não tenho adivinhado tudo?...

– Sim... é isso mesmo: faz-se-me preciso que Cândido não volte mais nunca ao “Céu cor-de-rosa”.

– E acredita que Celina será por tal meio menos indiferente à sua improvisada paixão?... ah! senhor, a virtude e um amor santo deram o leite a essa menina. A natureza dela e a sua se repelem; lembre-se que ela é um inocente anjo, e que não há simpatia possível entre um bom anjo e um demônio. E seria possível que nós lhe sacrificássemos minha sobrinha?...

– Eu o pensava, senhora.

– Oh!... tem a vencer primeiro a antipatia de Celina, o aborrecimento do velho Anacleto e o ódio de Mariana.

– E porventura não tenho eu alguma coisa a meu favor?...

– Um dia se há de quebrar essa arma!...

– Senhora, disse Salustiano endireitando-se na cadeira; tenho-lhe escutado sossegadamente; justo é que me ouça agora do mesmo modo.

– Mas vai-se fazendo tarde, senhor.

– A senhora pretendeu ter adivinhado meus sentimentos e não conhece ainda metade deles; quero dar-lhe idéia de mais alguns. Sim, o documento que possuo, me tem colocado na posição de senhor e a tem posto na de escrava. E eu, eu que sou rico e feliz, considero-a como uma de minhas riquezas, como a mais interessante carta do meu jogo dos prazeres da vida; e abuse ou não, hei de divertir-me jogando com essa carta, dela me servindo para ganhar as mais difíceis partidas. Sim! ostentei-me seu apaixonado e seu preferido, e o mundo em que vivemos acreditou que eu era amado e feliz.

– Oh! mas isso foi uma calúnia desse mundo, e uma infâmia de sua parte!

– Agora que já por muito tempo gozei a felicidade do parecer amado por uma senhora encantadora, quero realmente ganhar a posse de uma outra não menos bela. Amo, e ame ou não, quero que a “Bela Órfã” seja minha esposa. E sabe quem me há de ajudar nesse empenho?... sabe quem, se preciso for, há de levar a “Bela Órfã” de rastos aos altares, e forçá-la dizer – sim – ao sacerdote?... é a senhora.

– Eu?!

– Sim, porque atualmente eu tenho mais do que o documento de um crime; tenho um sentimento poderoso, por cuja existência e triunfo a senhora há de fazer tudo. Tenho um amor, cujos laços hei de quebrar, se não for ajudado e feliz em minhas pretensões.

– Senhor!...

– Esse amor que não morreu com um viajar de três anos, que resiste ainda, que hoje aparece e se mostra tão belo, tão cheio de esperanças, hei de eu matá-lo, senhora! ...

Mariana não pôde dizer nada.

– Se acaso uma barreira se levantar entre mim e sua sobrinha, eu também saberei levantar uma barreira que separe Mariana de Henrique.

– Senhor!

– Oh! a senhora sabe bem se eu posso, se eu tenho ânimo de o fazer... e eu o farei.

– Sim! sim! eu o sei: o senhor é capaz de tudo.

– E portanto a senhora há de necessariamente coadjuvar-me no meu empenho... por interesse próprio, para que eu não mate o seu amor...

– É muito!

– Para que eu não atire um documento terrível aos olhos do seu amante, aos

olhos do público; um documento que a condena como... de que nome quer a senhora que eu me sirva?...

– Senhor!... senhor!...

– Por ora, pois, cumpre-lhe somente despedir desta casa a esse homem que eu detesto. Com razão ou sem ela, ame ele ou não a sua sobrinha, seja ou não amado enfim, eu não peço, eu quero que esse mancebo deixe de vir aos serões do “Céu corde-rosa”. Senhora, repito a palavra com que começamos a tratar desta questão: – eu o exijo! e pronunciarei depois dessa a palavra que deve terminar todas as nossas discussões doravante: – se não...

– Oh! senhor! retire-se! exclamou Mariana com desesperação; retire-se! deixe-me em paz.

Como dissemos, a porta da sala tinha sido fechada no começo desta conferência.

No momento em que Mariana exclamava – retire-se! – um velho de quimono preto se afastou mansamente detrás da porta, e recolheu-se a um canto do alpendre.

Salustiano, e Mariana despediram-se enfim... como dois sicários que acabavam de tratar de um crime.

CAPÍTULO XVI

A VELHA, O MOÇO E A MOÇA

QUANDO Anacleto, Irias, Cândido e Celina entraram na sala do “Céu cor-derosa”, já Mariana ali não se achava.

Ou fosse para ocultar a perturbação, que por uma causa qualquer sentia, ou porque realmente se achasse fatigado, Anacleto convidou os dois habitantes do “Purgatório-trigueiro para cear com ele, e pedindo-lhes licença para descansar alguns momentos, dirigiu-se ao quarto de Mariana.

A viúva estava deitada e abatida. Queixou-se de que uma intempestiva e inesperada visita de Salustiano lhe exacerbara o incômodo de que poucas horas antes se tinha queixado.

(continua...)

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