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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Ora, Honorina, e quem manda a essas gralhas virem aqui mostrar-se com presunção de pavões?... é que se faz preciso rirmo-nos muito deles, porque eles pensam que zombam sempre de nós; zombemos, pois, também... zombemos muito. Olha, Honorina, uma boa parte desses senhores, que tanto nos cercam e nos cortejam, são tão tolos como presumidos, e alguns há ainda tão presumidos como insolentes!

— Mas tu és terrível, Raquel!

— É porque tu não os conheces como eu, Honorina. Tu não sabes o que é um jovem presumido. Por exemplo, dize: quantos hoje te hão asseverado que és encantadora!... anda... não cores assim... estás falando comigo: quantos?...

— Todos com quem dancei, Raquel.

— Pois bem, Honorina, eles falaram por acaso a verdade; mas queres tu apostar que quaisquer desses senhores vai dizer que és feia?...

Apesar de toda a sua simplicidade, Honorina não gostou da palavra feia; ela era mulher.

— Então, queres ou não?... repetiu Raquel.

— À minha vista, Raquel?... perguntou Honorina.

— Ora... à tua vista juraria de novo que és um anjo, o mesmo que tivesse dito que és feia.

— Mas poderei eu ouvi-lo?...

— Sim... é possível.

— Pois aceito.

— Bem... oh! a propósito... ali vai uma amiga minha, que nos pode servir: vem cá,

Úrsula...

— Adeus, Raquel!... mas deixa-me, eu vou à toilette...

— Não precisas: estás tão bela como entraste, ou mais ainda...

— Obrigada, meu senhor! quer saber onde eu moro?... perguntou Úrsula gracejando. — Deixa-te de graças, Úrsula; temos negócio sério; primeiro que tudo apresento-te esta senhora, que é minha amiga do coração.

Úrsula deu um beijo em Honorina, e voltando-se para Raquel:

— E depois?... perguntou.

— Ouve: Honorina é nova em nossas assembléias; acha por isso exagerado o quadro que lhe eu tracei dos nossos jovens cavalheiros...

— Oh!... são anjos todos eles, minha senhora!

— Pois, para dar-lhe uma fraca prova do que disse, eu propus fazê-la ouvir ser chamada feia por algum, ou alguns dos que durante a noite lhe juraram que ela era encantadora.

— Pois a senhora duvida disso?...

— Não; mas sempre quisera ouvir.

— Nada é mais fácil; mostre-me alguns desses senhores...

— Aqueles dois que ali conversam...

— Oh! por minha vida! exclamou Úrsula; são meus apaixonados!... mas... separemo-nos... e por enquanto, minha senhora, sou a sua maior inimiga!... Raquel, toma cuidado no meu lenço, ouviste?

— Vai... e apressa-te.

Cinco minutos depois a espertinha D. Úrsula, que se achava no vão de uma janela com outra moça, cercadas por alguns cavalheiros, fez com seu lencinho branco um sinal a Raquel.

— Agora, vem cá, disse Raquel a Honorina.

E, dando uma volta para não serem vistas, as duas moças espremeram-se na janela contígua àquela em que estava Úrsula.

A discussão já tinha começado. Os dois moços, que Honorina havia mostrado, estavam lá. — Mas eu digo, falava Úrsula, que ela deve estar bem orgulhosa! tem sido tão incensada... tão requestada... eu não sei mesmo por quê...

— Porque é uma novidade...

— Tem dançado por empenhos!...

— Ora, minha senhora, também isso é exageração...

— O Sr. Daniel e o Sr. Jônatas, por exemplo, morriam de paixão se não tivessem dançado com ela!...

Os dois rapazes começaram a dar satisfações, e tentaram livrar-se da moça, jogando a arma feliz, com que quase sempre se faz as pazes com uma senhora... fazendo-lhe elogios.

— Em todo o caso, D. Querubina, continuou Úrsula falando com a moça que lhe estava ao pé, nós devemos estar descontentes, e mesmo despeitadas; aquela senhora foi uma aparição terrível, que nos veio fazer mal... nós nos temos achado sós toda a noite!...

— Que injustiça! bradou Jônatas, eu não me lembro de haver jamais perseguido tanto V.

Ex.ª como hoje!...

— Eles fizeram uma comparação entre nós e ela, e a declararam princesa; concedendonos, talvez por compaixão, o grau de suas vassalas!...

— Meu Deus!... meu Deus!... como se julga mal de um pobre homem!...

— Paciência, D. Querubina, paciência!... é preciso ceder a palma à beleza do dia... o nosso reinado passou...

— Mas quem é a beleza do dia?... perguntou Daniel.

— Quem?... o seu par da segunda contradança...

— Misericórdia!...

— Nega que os senhores a têm achado a mais bela moça do sarau?...

Daniel olhou para Jônatas.

— Nego! disse Jônatas.

— Seria uma blasfêmia!... disse Daniel.

— Oh! eu os compreendo! ao pé de mim fala-se desse modo; mas daqui a pouco os senhores se vingam, desfazendo-se em elogiar a sua figura...

— Figura sem expressão, minha senhora, disse Daniel torcendo o nariz.

— A sua beleza...

(continua...)

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