Por Lima Barreto (1922)
— Marmeleiro, ensaia aí uma valsa.
— Só sei "Morrer sonhando" (exemplo).
— Serve.
O candidato dançou às mil maravilhas e o Visconde não escondia o grande contentamento de que sua alma exuberava. Indagou afinal.
— Sabe escrever com desembaraço?
— Ainda não, doutor.
— Não faz mal. O essencial, o senhor sabe. O resto o senhor aprenderá com os outros.
E foi nomeado, para bem documentar, aos olhos dos estranhos, a beleza dos homens da Bruzundanga.
Sobre os sábios
(a desenvolver)
Os engenheiros, tanto os civis como os militares, mais estes que aqueles, julgam-se geométricas. Não o são absolutamente; os melhores são simples professores.
Os médicos da Bruzundanga imaginam-se sábios e literatos.
Pode-se afirmar que não são nem uma cousa nem outra.
É sábio, na Bruzundanga, aquele que cita mais autores estrangeiros; e quanto mais de país desconhecido, mais sábio é. Não é, como se podia crer, aquele que assimilou o saber anterior e concorre para aumentá-lo com os seus trabalhos individuais. Não é esse o conceito de sábio que se tem em tal pais. Sábio, é aquele que escreve livros com as opiniões dos outros.
Houve um que, quando morreu, não se pôde vender-lhe a biblioteca, pois todos os livros estavam mutilados. Ele cortava-lhes as páginas para pregar no papel em que escrevia os trechos que citava e evitar a tarefa maçante de os copiar.
Há mais de século que se estudam nas suas escolas superiores, as altas ciências; entretanto os sábios da Bruzundanga não têm contribuído com cousa alguma para o avanço delas.
Em toda a parte, os sábios, de qualquer natureza, são homens de recursos medianos, modestos, retraídos, pouco mundanos, mesmo quando ricos. Na Bruzundanga, não; os sábios são nababos, têm carros e automóveis de luxo, palácios; freqüentam teatros caros, durante temporadas completas; dão festas suntuosas nos seus hotéis, etc., etc.
Não há médico afreguesado que não seja considerado um sábio pela gente da Bruzundanga, e, para firmar tal reputação, não fabrique uma compilação escrita em sânscrito. O médico sábio não pode escrever em outra língua que o sânscrito. Isto lhe dá foros de literato e aumenta-lhe a clínica.
Com a vida dos sábios da Bruzundanga ninguém poderia escrever Os Mártires da Ciência. Têm eles a precaução preliminar de inaugurarem a sua sabedoria com um casamento rico.
Sobre a música
A música, na Bruzundanga, é, em geral, a arte das mulheres.
É raro aparecer no país uma obra musical.
Sobre a indústria
A indústria nacional da Bruzundanga tem por fim espoliar o povo com os altos preços dos seus produtos. É nacional, mas recebe a matéria-prima, já em meia manufatura, do estrangeiro. A última nota solta
A habilidade dos governantes da Bruzundanga é tal, e com tanto e acendrado carinho velam pelos interesses da população, que lhes foram confiados, que os produtos mais normais à Bruzundanga, mais de acordo com a sua natureza, são comprados pelos estrangeiros por menos da metade do preço pelo qual os seus nacionais os adquirem.
A última nota solta
A habilidade dos governantes da Bruzundanga é tal, e com tanto e acendrado carinho velam pelos interesses da população, que lhes foram confiados, que os produtos mais normais à Bruzundanga, mais de acordo com a sua natureza, são comprados pelos estrangeiros por menos da metade do preço pelo qual os seus nacionais os adquirem.
OUTRAS HISTÓRIAS DOS BRUZUNDANGAS
As letras na Bruzundanga
"A solenidade que aqui nos reúne e para a qual foram convocados os poderes do Céu e da Terra, e o mar, é de tanta magnitude que a não podemos avaliar senão
rastreando, através das sombras do Tempo, a sua projeção no Futuro." Coelho Neto. Discurso na inauguração da piscina do Fluminense F.C.
O meu livro de viagem à República dos Estados Unidos da Bruzundanga está a sair das mãos do editor carioca Jacinto Ribeiro dos Santos; por isso nada lhe posso adicionar, senão quando estiver em segunda edição, caso tenha ele essa felicidade.
Nesse meio tempo, porém, tenho
recebido notícias de lá que, sem implicar numa total modificação dos costumes e
hábitos daquele notável povo e daquela curiosa terra, observados já por mim,
revelam, entretanto, pequenas alterações interessantes que não devem ficar sem
registro. Uma delas é a que se está passando com os seus literatos e poetas.
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.