Por Lima Barreto (1911)
Inácio da Costa parecia não dormir. A toda hora do dia e da noite, era encontrado na rua, falando e gesticulando em grupos, discutindo nos bondes, lendo jornais, nos cafés, visitando redações. A todos, prometia um governo de Salento e ameaçava com excomunhão os prudentes duvidosos. Com o seu fraque abanando, o seu coco, fungando com força, pondo em relevo as rugas do rosto, o Inácio não se cansava de dizer que a sã política é filha da moral e da razão.
Lucrécio e Bogoloff logo o encontraram na primeira esquina, pouco depois de saltarem do bonde. Estava limpo, banhado e o seu olhar era jubiloso e esperançado.
— Viram! Viram! Não digo... Temos governo!... Xandu já mandou restabelecer o — Saúde e fraternidade... — Os conselheiros tinham banido esse santo dístico mas agora... Estamos na República... Implicaram também com — Ordem e Progresso. Por quê? Vocês não querem “ordem”? Vocês não querem “progresso”? A ordem é a condição do progresso. — Será verdade? — indagou Bogoloff — Como não! A história...
— A bem dizer, é o contrário: todo o progresso tem sido feito com desordens.
— Doutor, o senhor está me parecendo um metafísico. Chico — disse ele dirigindo-se a um passante — espera aí. Até logo! Até logo!
E saiu, abanando o fraque, fungando, gesticulando, ao encalço do amigo.
Não tinha Bogoloff grande esperança de ser atendido pelo ministro do
Fomento. A promessa que lhe fizera, por ocasião da manifestação a Cogominho, não parecia que obrigasse o ministro a nada. Temia que o despedisse polidamente e, quando fosse o momento azado, já tivesse estragado o pedido. Fez parte de suas dúvidas a Lucrécio e este as julgou de peso.
— O melhor — disse Barba-de-Bode — é irmos à casa do doutor Macieira.
— Não o conheço bem... Não tenho grande intimidade...
— Mas eu o conheço. Vamos lá... Ele me atende... Agora, se arranjar qualquer coisa, é preciso trabalhar pela política dele.
— Não como médico — disse Bogoloff, rindo-se. — Qual! Isto é com a política do Liberato.
A hora era propícia e tomaram o caminho de Santa Teresa. Depois de Bastos, chefe absoluto e respeitado da política nacional, Macieira era um dos grandes magnatas da República. Graças à população do seu Estado natal, a sua representação na Câmara era volumosa; e, em todos os conchavos, tinha que ser pesada a sua colaboração de chefe dirigente. Como grande chefe, não podia nunca declarar-se em franca oposição; e a veleidade que teve disso tinha-o enfraquecido um pouco. Entre os dirigentes da política, há um curioso equilíbrio que precisa de um mais audaz para se fazer; e surgindo esse audaz, nenhum outro pode tomar-lhe o lugar porque sempre o rebelde teme que os colegas não o sigam. O governo é sempre contado como elemento preponderante e o audaz nunca se separa do governo.
Macieira temia muito que o sucesso presidencial não lhe fosse favorável e dar-se-ia isto se caísse em Xisto. Logo que ela assim se anunciou, ajudou a fazer cautelosas insinuações no ânimo de Bentes e viu com prazer tomar outro curso os acontecimentos. Por isso, tinha no interregno que se seguiu à resignação do presidente grande influência e preponderância.
Era um homem delicado, mas reservado e tinha sempre o aspecto da cogitação profunda Lucrécio entrou-lhe em casa, demorou-se um pouco e voltou logo dizendo que não lhe pudera falar, Voltasse ao dia seguinte, que seria atendido, recebera nesse sentido recado.
A impressão daqueles restos de floresta, a cidade confusa lá embaixo, a montanha roída trouxeram tristeza ao coração do russo, e recordações dolorosas do seu amargo passado. Em presença daquelas altas manifestações da natureza, o seu pensamento era triste. Diante do Atlântico, o mar tenebroso dos navegadores da renascença, quando veio, embora estivesse espelhante que nem um lago, a sua alma se confrangeu.
Ele — que mal conhecia a história daquelas águas e a das terras que banhavam — só se lembrou que estava ali o mar da escravidão moderna, o mar dos negreiros, que assistira durante três séculos o drama de sangue, de opressão e de morte, o sinistro drama do aproveitamento das terras da América pelas gentes da Europa.
Das dores de tantos milhões de seres, das suas agruras, dos seus padecimentos, da sua morte, só aquelas unidas e mudas águas guardavam memória, e só elas evocavam o drama de que foram palco.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.