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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Eu! acudiu Leonília, que acabava de observar os gestos de Teobaldo. Protesto contra as teorias de Aguiar e juro que o dinheiro não representa para mim a menor sedução... Gosto dele, não nego, mas nos outros, não por ele, mas pelo gostinho de o extrair gota a gota, beijo a beijo, e tanto assim que, mal o apanho, lanço-o à rua pela primeira janela que encontro aberta. Nunca depenei um ricaço por amor ao seu dinheiro, mas tão somente pelo gostinho de o deixar depenado. É uma paixão comparável à dos jogadores ricos, uma paixão de glória, uma febre de querer vencer, de querer derrotar, ainda com o sacrifício dos próprios interesses.

E erguendo o copo:

- Dinheiro! Dinheiro! rio-me dele! O dinheiro, quanto a mim, é a mais triste recomendação que um homem pode ter! Quais seriam os milhões que valeriam, por exemplo, o amor deste demônio?

E, dizendo isto, levava as mãos ao cabelo de Teobaldo e chamava a atenção dos outros para a cabeça dele, como quem mostra um objeto de arte.

- Que dinheiro vale a doçura aveludada destes olhos mais belos que os diamantes?... Que dinheiro vale toda esta riqueza? esta boca, este sorriso desdenhoso, estes dentes, esta palidez de estátua e este ar de senhor que mata de amores as suas escravas? Sim! Que me digam as mulheres qual é o dinheiro que paga tudo isto, sem contar ainda com o que há escondido neste tesouro - o talento, o caráter, a educação e a energia!

- Olha a Leonília apaixonada! exclamou o Aguiar rindo muito.

- E por que não? perguntou ele a encará-lo firme. Por que não? Julgas que sou incapaz de um sentimento nobre e desinteressado?... Pois olha, filho, queres que te diga? No dia em que abandonei o meu banqueiro estava em véspera de receber das mãos dele alguma coisa que eqüivale a tanto como o que possuis, e não foi por isso que não o

mandei passear, logo que entendi que o devia fazer!

- Ah! todos sabem que tu és mulher caprichosa...

- Caprichosa, não! Sou apenas mulher! Tenho coração, tenho nervos! Quando adoro um homem, sou capaz de tudo por ele, de tudo! compreendem? de tudo! Ainda que tivesse de quebrar todas as conveniências como quem quebra isto!

Assim dizendo, tinha arrancado do pescoço o seu colar e arremessava-o partido sobre a mesa.

Teobaldo compreendeu a intenção com que isso fora feito, e lançou sobre ela um olhar de ameaça.

- Que significa esse olhar? perguntou a cortesã. Não o compreendo.

- Tanto melhor para mim! disse o moço esvaziando o copo - porque não tenho a menor necessidade de ser compreendido por quem não o merece! - Sempre o mesmo orgulho e a mesma vaidade! replicou Leonília.

- Ah! volveu aquele, rindo com desprezo. Estás à beira da praia e julgas-te em pleno oceano! Meu orgulho! conhecê-lo-ás depois, se te passar pela fantasia a idéia de experimentá-lo!

- Então! então! reclamou o Aguiar, nós não estamos aqui para discutir questões dessaordem. Perante a pândega somos todos iguais. Faço anos e exijo que se lembrem um pouco de mim! Ainda não me fizeram um só brinde!

Leonília soltou uma risada e disse voltando-se para o festejado:

- Desculpa, filho, mas já não me lembrava que te devo o obséquio de teres feito anoshoje.

- Não repares, acrescentou Teobaldo, batendo com o seu copo no do outro rapaz. E bebamos à tua saúde! - para que nunca te arrependas de tuas teorias sobre o dinheiro!... - Obrigado! respondeu Aguiar, mas consente que eu te diga uma coisa com franqueza: Eu não faço anos hoje!

- Como assim?

- Perdoa-me, mais tarde o saberás!

Teobaldo olhou para o amigo, depois para Leonília e afinal sacudiu os ombros.

Já haviam comido a sobremesa e dispunham-se a tomar café, quando aquele deu por falta do Aguiar e da rapariga que este convidara para seu recreio.

- Para onde teriam ido? perguntou ele a Leonília.

- Foram-se embora. Chega-te mais para mim e ouve o que te vou dizer.

Teobaldo obedeceu.

- Sabes? disse da. Este jantar foi uma cilada que te armei; eu, só eu, podia fazer com que o Aguiar se achasse na intimidade em que o viste com aquela rapariga; em troca, ele empregou os meios para te arrastar até aqui.

- De sorte que eu servi de divertimento a vocês ambos?... Servi para objeto de especulação, fui negociado!

- É exato, respondeu ela, e creio que não levarás a tua birra ao ponto de me deixares aqui sozinha, em um hotel!...

- Mas por que não procederam de outro modo?

- Porque já te conheço e tenho plena certeza de que só assim havias de vir.

- E, se por gosto eu não teria vindo, para que obrigar-me então a vir à força?

- Porque antes assim do que nada. Para o amor todos os meios são bons.

- Pois saiba que errou nos seus cálculos, disse Teobaldo, indo buscar o chapéu; estou disposto a acompanhá-la até à casa, mas não subirei um só degrau de sua escada.

- Por que?

- Porque, para fazer da senhora a minha amante - sou pobre demais, e para ser o seu amant de coeur - sou muito rico e muito orgulhoso.

- Eu então só posso pertencer a um homem rico?

(continua...)

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