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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Ângelo, mais sucumbido ainda que antes do sacrifício, retirou-se da igreja cabisbaixo e concentrado.

À saída, um cavalheiro saiu-lhe ao encontro e tirando o chapéu, disse-lhe cortesmente:

— Perdão, Sr. vigário; tenho que desempenhar uma sagrada missão ao lado de vossa reverendíssima... Sagrada, porque é voto de uma pobre criatura que já não existe...

Esse cavalheiro era o conde de Saint-Malô. Ângelo convidou-o a entrar em casa.

— Tenho um companheiro comigo... observou o conde, chamando com um gesto Artur Bouvier, que o esperava a certa distancia.

Depois de trocados os cumprimentos, entraram os três na modesta sala de jantar do pároco. Bouvier não se fartava de olhar para este como se observasse um fenômeno precioso pela raridade.

Naquela pobre casa desfavorecida do menor conforto, a elegante roupa de seda bordada a ouro dos dois cavalheiros destacava-se escandalosamente. Ângelo, defronte deles pálido e mal vestido, parecia um esfarrapado cadáver saído naquele instante da vala comum dos miseráveis.

Uma idéia o preocupava todavia, desde o momento em que os considerou de perto. É que, ao vê-los assim, cheios de saúde, gentilmente vestidos e empoados, levantando entre as abas da casaca a petulante ponta do florete, lembrava-se da sua própria figura essa noite ao lado de Alzira, e seria capaz de jurar que já em sua vida, ou nos seus sonhos, tinha visto aqueles dois homens.

Salomé trouxe-lhe pão fresco e leite fervido.

O pároco deu às visitas os melhores assentos que havia na casa, e ofereceu-lhes do seu almoço.

Enquanto comiam, o conde expôs o motivo da sua viagem a Monteli.

— Venho, senhor cura, disse ele, entregar-lhe um cofre e uma carta, que encontramos no espólio da falecida condessa Alzira... Aqui estão. Trazem o seu nome.

— O meu nome?... balbuciou Ângelo, a tremer, visivelmente perturbado, mas...

— Testamenteiros dela, como somos, acrescentou o conde, indicando ao mesmo tempo Bouvier, cumpre-nos fazer entrega desses objetos. Ei-los.

E apresentou-lhe um pacote de pouco mais de um palmo de tamanho, cuidadosamente embrulhado e lacrado. Tenha a bondade de recebê-los.

Ângelo, sumamente pálido, estendeu a mão, hesitante.

E tal era o seu tremor, que o conde teve de ajudá-lo a quebrar o selo do pacote e tirar de dentro a carta, que lhe passou incontinente.

— Leia, disse. Creio que esse papel explica a razão de ser do cofre...

Ângelo abriu a carta e leu o seguinte:

"Respeitável Cura de Monteli.—Desejo e peço a Vossa Reverendíssima que se encarregue de distribuir pelos infelizes da sua pobre paróquia, ultimamente tão vitimada pela peste, a quantia que acompanha esta carta e que se acha dentro de um cofre, por minha mão fechado e sobrescritado a Vossa Reverendíssima. Outrossim, peço que nas suas orações de santo interceda algumas vezes junto a

Deus por minha triste alma pecadora arrependida e contrita." Assinava "Alzira".

Com a leitura daquelas palavras, que pareciam vir do outro mundo, que pareciam vir do fundo nebuloso dos seus sonhos, Ângelo estremeceu todo e fez mais lívido que a própria Alzira, no momento em que ela pela primeira vez lhe surgiu da sepultura. Aquela carta, que um frio sopro de morte lhe arrojava às mãos, vinha obrigá-lo a pensar nessa mulher já extinta, que tanto aliás o procurava ainda.

Oh! Aceitando aquela missão teria que pensar nela eternamente... Teria que envolver seu nome impuro nos sagrados dizeres das suas fervorosas orações!... Teria que falar a Deus a respeito dessa misteriosa cúmplice, de quem ele se não queria recordar nunca, e teria de a fazer conhecida e abençoada por todos os pobres da aldeia, enquanto durasse aquele dinheiro, fruto da prostituição!

E repeliu o cofre, disposto a não aceitar o encargo.

Mas pensou, antes de proferir a recusa; teria ele porventura o direito de assim proceder?... Teria ele o direito de privar os miseráveis de Monteli daquele utilíssimo socorro, que uma alma, sedenta de perdão, lhes enviava do seu leito de morte?...

E não seria fraqueza de sua parte, temer tanto ao traiçoeiro inimigo, que o vinha surpreender à noite durante o sono, quando justamente a sua consciência não era responsável pelos seus pensamentos?... Pois então a sua fé e a sua confiança em si próprio eram tão frágeis e tão mofinas, que assim covardemente fugia da luta, antes mesmo de começar o combate?

— Não! pensou ele, resoluto, pondo-se de pé e estendendo a mão sobre o cofre. O meu dever será cumprido! Se mais sofrimentos me estão reservados por isso, tanto melhor! tanto melhor, porque mais completa será a minha provação! Maria sofreu muito mais, quando lhe arrancaram o filho dos seus amorosos braços de mãe, para atirá-lo aos cruentos braços de uma cruz!

E, voltando-se tranqüilamente para os outros dois, disse-lhes sem hesitar:

(continua...)

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