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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Gabriel, entretanto, também se restabelecia quanto ao corpo, porém absolutamente nada quanto ao espírito.

À tarde saía do quarto, arrastando debilmente a sua mágoa, e ia assentar­se, sombrio, debaixo das mangueiras, ao fundo da chácara. Comprazia­se então em deixar­se penetrar pela tristeza misteriosa do crepúsculo, e ficava horas esquecidas a olhar vagamente para o horizonte, que além se atufava nas últimas matizações da luz do sol.

Uma vez achava­se aí, como de costume. Era uma tarde esplêndida. Todavia, a natureza parecia ir morrendo à proporção que lhe escapava o dia, como se lhe fugisse a alma.

Havia em tudo a sombra melancólica de uma saudade; as árvores murmurinhavam numa deliciosa agonia, e no seio da terra caíam as primeiras lágrimas da noite.

Gabriel permanecia meditativo, a cismar no seu malogrado amor. Sem se regozijar com os últimos acontecimentos, sentia não obstante certo prazer amargo em pensar no sofrimento de Ambrosina e na desgraça de Leonardo.

Ah! ela com certeza teria mais de uma vez se arrependido da escolha que fizera!... pensava o pobre rapaz; entretanto, se o tivesse aceitado a ele para marido, como seriam agora felizes!... que bela luade­mel não desfrutariam ao calor amoroso daquelas tardes!...

E continuava a meditar: Que triste situação a dela!... afinal, não era casada, nem solteira e nem viúva... Não podia ser amada e nem podia amar, pois Leonardo não dava esperanças de melhoria... Pobre Ambrosina!

E Gabriel, apesar de tudo, sentia que a amava sempre; como nunca! sentia que aquele doido amor, longe de perecer desabrochava em novos rebentões, viçosos e verdejantes.

— Maldito! apostrofou ele; mil vezes maldito seja aquele homem, que veio despedaçar a minha felicidade!

E escondeu a cabeça entre as mãos, a soluçar. Quando levantou, viu defronte de si Eugênia. Esta o observava silenciosamente, com um olhar cheio de doçura e melancolia.

— Ah! exclamou Gabriel. Não sabia que estava aí...

— Sim, vim mais esta vez importuná­lo com a minha presença...

— Não; a sua presença só pode trazer­me esperança e resignação... Importunar­me a senhora! E por quê? por que não lhe causa tédio o infeliz que sofre e vive das suas próprias dores? Não! a senhora, que ultimamente se converteu em minha confidencial amiga, nunca será para mim uma importuna... Eu a estimo, D. Eugênia, como se foramos irmãos.

Eugênia abaixou os olhos.

— Às vezes, continuou Gabriel, tomando­lhe as mãos; quero crer que nos aproxima a simpatia do sofrimento, quero crer que nesse coração, sereno e casto, já algum dia esfuziou também a tempestade. Eu lhe tenho falado de minha vida; disse­lhe com toda a franqueza os meus infortúnios... por que não me conta a senhora os seus?... Eu os saberia compreender... Vamos! diga­me alguma cousa dos seus segredos... Seja minha amiga.

— Não! não lhe posso dizer cousa alguma...

— Não tem confiança em mim?

— Valha­me Deus! Tenho, o que não tenho são segredos... Vim procurá­lo aqui para lhe dizer que amanhã nos vamos embora... O senhor já é conhecido e estimado por minha família... apareça­nos...

— Meu Deus! como está comovida!...

— Não faça caso... Adeus...

— Adeus, disse Gabriel, colhendo um ramo de miosótis. Olhe, leve estas flores, para se lembrar de mim.

Eugênia recolheu as flores ao seio, e retirou­se pensativa e triste.

Entretanto, Ambrosina presenciava esta cena por detrás das gelosias de seu quarto.

— Miserável! disse consigo mesma, num sobressalto de ciúmes. E eu que supunha que ele só a mim amasse!...

Aquele procedimento de Gabriel a revoltava e lhe doía por dentro como a mais negra das traições.

— Correspondem­se? Pois não hão de amar­se, que o não quero eu! protestou ela de si para si.

XIX

AMO­TE! VEM!

Mas na semana seguinte, um novo desastre veio revolucionar ainda uma vez a casa. O comendador caíra prostrado por uma congestão cerebral, que lhe punha em risco a existência.

Andavam todos aturdidos. Ambrosina apresentava grande palidez, acompanhada de suspiros e olhares desesperançados. O comendador ia de mal a pior. Voltou logo a fazer­lhe companhia a família do negociante inglês. Do Reguinho e do Melo Rosa é que ninguém sabia dar notícias. Genoveva, essa conservava sempre a mesma inerte e carnuda resignação.

— Doutor, dizia o enfermo a Gaspar; não me abandone... O senhor não imagina a fé que me inspira!... Oh! incontestavelmente há intervenção da Providência em tudo isto!... Quem poderia calcular que eu viesse a ter, à cabeceira da minha cama, o filho do honrado velho que persegui tão covardemente durante a vida?... O Providência, acredito agora em teus desígnios!

— Bem! mas não esteja a mortificar­se... aconselhou o Médico Misterioso.

(continua...)

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