Por Manuel Antônio de Almeida (1852)
— Nunca pensei, interrompeu Chiquinha dirigindo-se ao Leonardo-Pataca, querendo afear mais o caso; nunca pensei que na sua companhia se viesse a sofrer semelhante coisa...
— Não faças caso, menina, isto é um pedaço de mariola a quem hei de ensinar; por causa de ninguém dou-lhe eu uma rodada, se não por tua causa...
— Por causa dela!... atalhou o rapaz; tinha que ver! há de lhe dar bom pago; tão bom como a cigana...
— Mas nunca lhe hei de dar, acudiu Chiquinha enfurecida com este insulto; nunca lhe hei de dar o que lhe deu tua mãe...
Com isto o Leonardo-Pataca descoroçoou completamente, que dilúvio de amargas recordações não fizeram tão poucas palavras cair sobre sua cabeça!
— Espera, maltrapilho, espera que te ensino, exclamou vermelho de cólera; espera que te ensino...
E entrando repentinamente no quarto da sala, saiu de lá armado com o espadim do uniforme, e investiu para o filho. Convém dizer que o espadim ia embainhado.
— Não se ponha a perder por minha causa, exclamou Chiquinha agarrando-o pela camisola de chita com que ele estava vestido.
Era inútil porém o medo de Chiquinha, porque o rapaz, vendo que o negócio ia-se tornando feio, tendo-lhe ficado um terror instintivo do pai depois daquele pontapé que nunca lhe saíra da memória, tinha-se posto ao fresco na rua, fechando a rótula sobre si.
— Oh! maroto, disse ainda o Leonardo-Pataca, que te havia desancar...
O Leonardo que fugia por um lado e a comadre que entrava por outro, pois estivera ausente durante toda a cena. Apenas foi largando a mantilha e viu os dois atores que tinham ficado em cena ainda nas posições do último quadro, tratou de indagar qual fora o drama que se acabava de representar.
— Ora foi uma das costumadas do afilhado dos seus amores, respondeu Chiquinha, ainda não sossegada.
— Porém ia-lhe saindo caro desta vez, acudiu Leonardo-Pataca.
— Pois deveras, atalhou a comadre indignada; pois deveras o compadre estava armado de espada para dar no rapaz?
— Olá! que levava tão duro como osso!
— Mas então por quê? quantas mortes fez ele de uma vez? onde é que pôs fogo na casa? Triste coisa é um filho sem mãe!... Aposto que se eu cá estivesse nada havia de suceder!...
— Sim, respondeu Chiquinha, porque logo havia de tomar as dores por ele, segundo é seu costume. Aí está; muitos filhos têm mãe, e entretanto elas servem-lhes para isto: tomam as dores por outros, e deixam-nos de banda.
— Qual! histórias! é que tudo leva seu bocado de mau caminho.
— Oh! senhora! atalhou Leonardo-Pataca, se isto vai assim, não há um momento de sossego nesta casa; acabada uma, começa outra; o que não há de dizer esta vizinhança? Olhem que isto aqui é casa de um Oficial de Justiça.
— Mas enfim, disse a comadre, onde está o rapaz? onde é que o enterraram?
— Saiu por ali desencabrestado, e tomara que cá não volte.
— Ora está bonito! Oh! mas isto não pode ser assim; correrem com o rapaz de casa para fora!... Ele não é nenhum desgraçado, pois sempre tem o que lhe deixou seu padrinho.
— Essas e outras é que o puseram a perder.
— Sim, metam-lhe fumaça de rico na cabeça, e hão de ver no que dá.
— Coitado, disse lamentando a comadre, aquele nasceu com má sina.
E tomando de novo a mantilha, saiu com as lágrimas nos olhos em procura de Leonardo.
Ao sair escoravam-na à janela três ou quatro vizinhas.
— Então o que é que fizeram ao moço?
— Que foi isso, Sra. comadre?
— Ele passou por aqui pondo dez léguas por hora.
— Deixe-me, deixe-me, respondeu a comadre, que isto não acaba bem.
CAPÍTULO XXX
REMÉDIO AOS MALES
(continua...)
ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16987 . Acesso em: 8 mar. 2026.