Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Lucinda levantou—se dos pés de Rozaura, sentou-se em um tamborete e fez a menina sentar-se sobre seus joelhos. Nessa posição contou á menina em poucas palavras, mas com muita vivacidade, a historia do seu nas— cimento, a malicia e fraude da velha que a tinha reduzido ao captiveiro, o modo singular, pelo qual ainda na vespera, e de que Rozaura estava bem lembrada, ella, Lucinda, tinha descoberto que Rozaura era a menina que tinha sido engeitada á porta de Nha-Tuca, a confissão da velha, e como acabava de ser reconhecida como livre de nascimento por toda a gente de casa.

Lucinda em toda a sua singela e animada narração tinha contado unicamente o milagre, mas muito de proposito não tinha nem por indicios revelado o nome do pae nem da mãe de Rozaura ; queria reservar-lhe essa deliciosa sorpreza.

Quando terminou, Rozaura saltou-lhe do collo, e collocando-se em pé de fronte da velha creoula fitou-a com um desses olharos indefiniveis, que exprimem a um tempo sorpreza e prazer, duvida e assombro.

— Então, quem é meu pae? — perguntou ella,

É aquelle moço que hontem veio aqui, que esteve lá embaixo na loja com Nhô Moraes, e que hoje veio ahi tambem ; é nhô Conrado.

— Devéras ! — exclamou Rozaura interrogando a velha creoula com seu olhar expressivo e scintillante de alegria. — Devéras meu pae é aquelle homem que hontem esteve ahi, e que me mandou chamar lá em baixo na loja.

— É esse mesmo; pois ainda duvida, minha menina?...

— Ah ! meu Deos ! não duvido não ; deve ser elle mesmo ; meu coração parece que estava adivinhando. Desde que o vi, não quiz mais arredar meus olhos delle„ e fiquei, não sei porque, lhe querendo um bem como você não faz idea, tia Lucinda.

— Como não havia de ser assim a voz do sangue falla muito alto.

— Mas, tia Lucinda, você disse tambem que eu ainda tenho mãe ; isso é que eu não posso acreditar. Quem é ella onde está?.. . Oh! meu Deus, que alegria não seria para mim ir beijar agora mesmo a mão della.

— Isso é que nada custa.

— Mas, quem é ella ? . . . falla, tia Lucinda.

— Pois sinhásinha devéras ainda não adivinhou ? . . .

Rozaura olhou atonita para Lucinda, e nada respondeo.

Pois bem, continuou o creoula to- mando a mão de Rozaura ; — eu vou levar já sinhásinha onde está sua mãe.

Rozaura, sem saber o que pensar, deixou-se machinalmente levar pela mão de Lucinda, que a conduzio ao quarto de Adelaide.

— Mas aqui é o quarto de sinhá Adelaide,

— disse Rozaura. — Minha mãe está ahi com

Ella ?...

— Está, sim, respondeo vivamente a creoula empurrando a porta do aposento, que apenas se achava encostada. Entra, sinhásinha.

Adelaide estava só, Tinha mandado os filhos a passeio. O major, profundamente commovido pela scena a que acabava de assistir, tinha-se recolhido á solidão de seu gabinete. Moraes havia descido para a loja a ver se alli encontrava alguma distracção ao embate de mil pensamentos peniveis, que lhe atormentavão o espirito .

Adelaide já esperava sua filha, essa que ainda hontem julgava sua escrava, e que a oora pela primeira vez ia apertar em seus braços. Estava encostada a um bufete, com a face pousada sobre uma das mãos, e voltada para a porta, sobre a qual tinha os olhos fixos. Divisavam-se em suas palpebras vestigios de lagrimas, mas pairava-lhe nos labios um levc sorriso cheio do affccto e melancolia. Era nobre e sympathica a sua figura e em seu todo brilhava uma especie de formosura talvez mais attractiva do que essa que na aurora da vida florejava em seu rosto tão esplendida e viçosa. Era a belleza calma e suave do outono, despida dos garridos encantos e das vivazes o embaidoras seducções da primavera. Apenas vio Rozaura, que entrava por seu quarto procurando em váo com os olhos por todos os cantos alguem que nao fosse Ádelaide, adiantou-se para ella com os bracos abertos.

Vem, minha filha, vem, exclamou Ádelaide com transporte ; — vem abraçar tua mae...

Rozaura a principio estacou petrificada de pasmo ; seu espirito hesitou um momento ; julgava-se victima de alguma allucinação ; mas bem depressa a voz de natureza fallouIhe alto ao coração, e dissipou-lhe todas as duvidas.

— Minha mãe ! — foi a unica palavra que pronunciou, e precipitou-se nos braços de Adelaide, inundando-lhe o seio de lagrimas de prazer e ternura.

CAPITULO XIX

Um estudante sinceramente enamorado.

— Que tem, meu Carlos, que ha tempos a esta parte andas triste e amuado, assim com cara de Romeo pallido com saudade de sua Julieta, e outras vezes com gestos de Othelo furibundo prestes a suffocar Desdémona?

-— Tu fallas galhofando, Frederico, porque não sabes o que eu soffro. É um sentimento intimo e profundo, que tenho vergonha e até medo de communicar a vocês, que tudo mettem a ridiculo.

—— Menos eu, Carlos ; principalmente, quando estamos a sós, longe da algazarra de nossos turbulentos companheiros. Pergunto-te com verdadeiro interesse o motivo desse abatimento de espirito, que ha mais de um mez todos notão em ti, e que, digo-te com sinceridade, não deixa de me affligir e inquietar bastante.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4445464748...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →