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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Nunca pensei, replicou com gravidade, — que a tal ponto chegasse a exaltação desse teu excêntrico e malfadado amor. Que por um impulso de humanidade procures proteger uma escrava desvalida, nada mais digno e mais natural. O mais não passa de delírio de uma imaginação exaltada e romanesca. Será airoso e digno da posição que ocupas na sociedade, deixares-te dominar de uma paixão violenta por uma escrava?

— Escrava! — exclamou Álvaro cada vez mais exaltado, — isso não passa de um nome vão, que nada exprime, ou exprime uma mentira. Pureza de anjo, formosura de fada, eis a realidade! Pode um homem ou a sociedade inteira contrariar as vistas do Criador, e transformar em uma vil escrava o anjo que sobre a Terra caiu das mãos de Deus?...

— Mas por uma triste fatalidade o anjo caiu do céu no lodaçal da escravidão, e ninguém aos olhos do mundo o poderá purificar dessa nódoa, que lhe mancha as asas. Álvaro, a vida social está toda juncada de forcas caudinas, por debaixo das quais nos é forçoso curvar-nos, sob pena de abalroarmos a fronte em algum obstáculo, que nos faça cair. Quem não respeita as conveniências e até os preconceitos sociais, arrisca-se a cair no descrédito ou no ridículo.

— A escravidão em si mesma já é uma indignidade, uma úlcera hedionda na face da nação, que a tolera e protege. Por minha parte, nenhum motivo enxergo para levar a esse ponto o respeito por um preconceito absurdo, resultante de um abuso que nos desonra aos olhos do mundo civilizado. Seja eu embora o primeiro a dar esse nobre exemplo, que talvez será imitado. Sirva ele ao menos de um protesto enérgico e solene contra uma bárbara e vergonhosa instituição.

— És rico, Álvaro, e a riqueza te dá bastante independência para poderes satisfazer os teus sonhos filantrópicos e os caprichos de tua imaginação romanesca. Mas tua riqueza, por maior que seja, nunca poderia reformar os prejuízos do mundo, nem fazer com que essa escrava, a quem segundo todas as aparências quererias ligar o teu destino, fosse considerada, e nem mesmo admitida nos círculos da alta sociedade...

— E que me importam os círculos da alta sociedade, uma vez que sejamos bem acolhidos no meio das pessoas de bom senso, e coração bem formado? Demais, enganas-te completamente, meu Geraldo. O mundo corteja sempre o dinheiro, onde quer que ele se ache. O ouro tem um brilho que deslumbra, e apaga completamente essas pretendidas nódoas de nascimento. Não nos faltarão, nunca, eu te afianço, o respeito, nem a consideração social, enquanto nos não faltar o dinheiro.

— Mas, Álvaro, esqueces-te de uma coisa muito essencial; e se te não for possível obter a liberdade de tua protegida?...

A esta pergunta Álvaro empalideceu, e oprimido pela idéia de tão cruel como possível alternativa, sem responder — palavra olhava tristemente para o horizonte, quando o boleeiro de Álvaro, que se achava postado com sua caleça junto à porta do jardim, veio anunciar-lhe que algumas pessoas o procuravam e desejavam falar-lhe, ou ao dono da casa.

— A mim! — resmungou Álvaro; porventura estou eu em minha casa?... mas como também procuram o dono desta... faça-os entrar.

— Álvaro, disse Geraldo espreitando por uma janela, — se me não engano, é gente da polícia; parece-me que lá vejo um oficial de justiça.

— Teremos outra cena igual à do baile?...

— Impossível!... com que direito virão tocar-me no depósito sagrado, que a mesma polícia me confiou!...

— Não te fies nisso. A justiça é uma deusa muito volúvel e fértil em patranhas. Hoje desmanchará o que fez ontem.

CAPÍTULO XVII

O primeiro cuidado de Martinho logo ao sair do baile, em que viu malograda a sua tentativa de apreender Isaura, foi escrever ao senhor dela uma longa e minuciosa carta, comunicando-lhe que tinha tido a fortuna de descobrir a escrava que tanto procurava.

Contava por miúdo as diligências que fizera para esse fim, até descobri-la em um baile público e encarecia o seu próprio mérito e perspicácia para esbirro, dizendo que a não ser ele, ninguém seria capaz de farejar uma escrava na pessoa de uma moça tão bonita e tão prendada.

(continua...)

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