Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Perto da pirâmide – Ao Amor do Público – arranjara-se uma casinha de tábuas e coberta de zinco, onde se vendiam café e sorvetes; tudo, porém, com uma tal negligência, com exterioridades tão repulsivas, que o café e os sorvetes, em vez de excitar o desejo, provocavam o enjôo.
E fora do jardim, aos pés e aos lados do terraço, de dia e de noite, o ar se empestava com exalações pútridas provenientes dos despejos que se faziam.
É triste dizê-lo: tudo isso, porém, é absolutamente a verdade.
E o único desses sinistros sinais de abandono que se podia apontar como antigo era o abuso inqualificável dos despejos feitos na praia vizinha do Passeio Público.
Um notável viajante já tinha, em época muito anterior, tomado nota dessa triste prova de desmazelo municipal.
M. Abel du Petit Thouars, que saíra de França em dezembro de 1837 na fragata Vênus, para fazer uma viagem à roda do mundo, chegara ao Rio de Janeiro, e visitando o nosso Passeio Público, escrevera em sua carteira pouco mais ou menos o seguinte:
“O lugar seria delicioso, se na praia contígua não se fizessem despejos imundos, o que aliás se observa em todas as praias da cidade.”
A Vênus do viajante francês fugiu, de certo, espantada das vizinhanças do nosso Passeio Público. Mas, a nossa câmara municipal, nem com o espanto da deusa dos amores procurou destruir o abuso repugnante que afeava a mansão das flores.
Em 1859, a imprensa da capital clamou contra o desprezo em que se achava o Passeio Público, e repetidas vezes procurou despertar a administração, fazendo-se destarte eco das queixas do povo, como lhe ordenava o dever do seu ministério.
Em janeiro de 1860, enfim, uma boa e simpática visita arquiducal veio talvez dar motivo a que o governo voltasse os olhos para aquele estabelecimento público.
S. M. o Imperador honrava, ainda naquela época, com a sua presença algumas das províncias ao norte do Rio de Janeiro, quando aportou a esta cidade o arquiduque Maximiliano d’Áustria.
Os fluminenses receberam com alegria o príncipe ilustrado que já uma outra vez saudara a bela Niterói, visitara curioso o interior do nosso país, estudara sem prevenções os nossos costumes, e escrevendo em uma obra recomendável as suas observações, de nós se ocupara sempre sem azedume, quase sempre com justeza, e algumas vezes com sinais de estima.
Sem teatros, sem galerias de belas-artes, sem parques, sem monumentos, sem riquezas artísticas que ocupem por momentos a atenção dos estrangeiros ilustres que chegam à nossa capital, nós os fluminenses apelamos para os tesouros da nossa grandiosa natureza, e envergonhados da miséria das obras dos homens, voltamo-nos para o recurso que nos oferece a majestade das obras de Deus, e procuramos dirigir os passos dos nossos hóspedes para os arrabaldes da cidade, onde se encontram ainda objetos dignos de admiração no pouco que nos resta do muito com que a Providência Divina nos dotou.
E assim, nós os fluminenses batíamos palmas de contentamento, quando víamos o príncipe Maximiliano dirigir-se ao alto do Corcovado, à Gávea e à Tijuca, e subir ainda o pitoresco morro de Santa Teresa.
Chegou, porém, um dia em que o príncipe deixou o caminho das alturas, penetrou no seio da cidade, dirigiu-se pela rua das Marrecas, e entrando no Passeio Público, foi subir ao terraço, donde poderia apreciar ainda uma vez a magnificência da nossa baía. Mas, ah! Mal tinha o arquiduque avançado quatro passes no recinto da elegante varanda, e já com ambas as mãos levava o lenço ao nariz!...
O nosso vexame foi tão grande que um brado geral soou, e o governo não teve remédio senão acordar e olhar para o Passeio Público.
O lenço levado ao nariz pelo príncipe Maximiliano d’Áustria serviu de motivo a novos clamores da imprensa, e concorreu no seu tanto para que se determinasse a regeneração do nosso jardim público.
O Sr. Conselheiro Ângelo Muniz da Silva Ferraz, que ficara na corte encarregado da pasta do Ministério do Império, compreendeu que não se podia adiar por mais tempo a satisfação dos desejos do povo, e convidando para uma entrevista o Sr. Francisco José Fialho, conseguiu que este cidadão se encarregasse da obra da reforma do nosso Passeio.
A escolha do Sr. Fialho foi certamente bem aconselhada. Além
de todos os outros dotes que recomendam este nosso patrício, tem ele dado
provas de um gosto apurado e de muito amor pelas belas-artes. Em relação ao
mister de que se tratava, era já de todos ou pelo menos de muitos, conhecida a
importância e merecimento artístico das obras do parque ou grande jardim
paisagístico, que ele está fazendo executar em sua propriedade da rua de Monte
Alegre, sob o risco e a direção do hábil jardineiro francês o Sr. A. Glaziou,
parque ou jardim destinado ao recreio público, como são os Mabille, Chateau des
fleurs de Paris e outros das grandes cidades da Europa.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.