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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Na manhã do passeio, contudo, entendia Ricardo que o galanteio já ia entrando demais pelo recato de uma senhora casada. 

Fábio não só tinha servido de escudeiro a D. Guilhermina para suspendê-la do banco, meter-lhe no estribo o pé elegante, e arranjar-lhe as dobras da saia de montaria, como continuara pelo caminho a exercer o mesmo agradável mister. 

Era ele quem levava o chapeuzinho de sol, o lenço, as flores, o leque e até o chicotinho de madrepérola da senhora, que lhe confiara de boa vontade todos esses objetos, não só pela comodidade de os trazer à mão em um cabide ambulante, como para dar ao moço o prazer de os guardar. 

Se precisava do lenço para enxugar os lábios úmidos do sorriso, como um lilás ressumando orvalhos; se tinha fome, como o colibri dos perfumes de seu ramo de violetas; se os dedos cativos na luva de pelica bronzeada sentiam ímpetos de se agitarem, como os passarinhos de voar, e queriam divertir-se a cortar os talos das folhas com a vergasta do chicotinho, Fábio prontamente lhe passava o objeto desejado, e nessa troca, repetida de instante a instante, as mãos se tocavam uma e muitas vezes no meio dos risos causados pelos desencontros. 

Quando o sol montando as assomadas fronteiras começou a castigar o caminho, Fábio apressou-se em abrir o chapelinho de sol para resguardar o rosto da formosa senhora, que de bom grado prestou-se a essa fineza oriental como uma sultana a receberia de seu escravo. 

Assim, tendo necessidade de conchegar o animal para melhor interceptar o sol, sentia Fábio roçar-lhe pelo braço a linda espádua, cujo tépido conchego o trespassava. Nestas ocasiões um ligeiro rubor repontava na face aveludada da moça; mas desfolhava-se logo em um riso desdenhoso, como uma rosa a que a chuva arranca as pétalas. 

Esse jogo mútuo de ademanes e brincos, Ricardo o considerava não mais simples amabilidade, porém namoro formal e já escandaloso para uma senhora casada. 

Nisso mostrava Ricardo o seu atraso nas regras da boa sociedade. Ainda estava pelo antigo rojão, quando se reparava em tais bagatelas, e fazia-se mau juízo da senhora que desse a qualquer moço, ainda mesmo um íntimo, tanta liberdade. 

Atualmente é a moda; a moça solteira ou casada, que não tiver essas maneiras distintas, certamente não passa por elegante. 

Outra circunstância muito incomodava a Ricardo: era a facilidade com que Fábio insinuava-se nessa sociedade, onde ambos se deviam considerar apenas como hóspedes de arribação, prontos a deixá-la ao cabo de algumas horas. Ao contrário, o amigo já começava a desfrutar os favores com tal desembaraço, que pouco faltava para entrar no rol dos íntimos, espécie de parasitas da pior casta, porque não só devoram os jantares e ceias, estragam os cavalos, carruagens e móveis, mas babujam a reputação, quando não a honra. 

Eis os motivos que traziam tão preocupado o jovem advogado durante o passeio. 

Outra pessoa porém perseguia a Fábio com olhares furibundos; era o Benício, que por vezes tentara aproximar-se, mas tivera de ceder à baia, rebelde ao freio, e mais teimosa que ele! 

Estaria o Benício também apaixonado por D. Guilhermina? 

E por que não? Apesar as compridas pernas, do longo talhe em abóbada, e da cabeça a três quinas, pode um homem ter o coração sensível. 

 

XVI 

 

Próximo à crista da montanha, onde o caminho talhando-lhe o cimo, começa a descambar para a vertente, deu-se um pequeno acidente que só notaram três pessoas, além daquelas entre quem se passou. 

- Pode fechar! disse D. Guilhermina para Fábio indicando-lhe com o olhar o chapéu de sol. O senhor deve estar cansado! 

- Por tão pouco? Não me prive deste prazer. 

- Deveras? Acha que é um prazer trazer um chapéu de sol aberto? perguntou a moça com remoque. 

- Para abrigá-la do sol?... Decerto que o é! 

- Neste caso deixe-me também experimentar. Faça-me o favor de passar o meu! 

Fábio quis desobedecer e retorquiu; mas, insistindo a senhora, deu-lhe o chapelinho de cetim verde e contentou-se com apertar-lhe a ponta dos dedos, que não fugiram a tempo de escaparem à cilada. 

D. Guilhermina tinha casualmente, por duas ou três vezes, encontrado o olhar perscrutador de Ricardo; e sentindo-se alvo da atenção do moço, também teve de seu lado curiosidade de observá-lo. 

O chapéu de sol de Fábio interceptava-lhe o olhar; afastou-o pois, e adiantou o cavalo de modo a não perder os movimentos do moço, sem deixar contudo que ele o percebesse. 

(continua...)

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