Por José de Alencar (1857)
— Sim; e como tu não queres dar a Peri a tua hospitalidade, uma árvore da floresta lhe servirá de abrigo.
— Tu me ofendes, Peri! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta para todos, e sobretudo para ti que és amigo e salvaste minha filha.
— Não, Peri não te ofende; mas sabe que tem a pele cor de terra.
— E o coração de ouro.
Enquanto D. Antônio continuava a insistir com o índio para que partisse, ouviu-se um canto monótono que saia da floresta.
Peri aplicou o ouvido; descendo à esplanada correu na direção donde partia a voz, que cantava com a cadência triste e melancólica particular aos índios, a seguinte endecha na língua dos Guaranis:
“A estrela brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas asas.
“A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos.
“Na guerra os guerreiros combatem; há sangue. Na paz as mulheres trabalham; há vinho.
“A estrela brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de andar.”
A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma índia já idosa; encostada a uma árvore da floresta ela vira por entre a folhagem a cena que passava na esplanada.
Chegando-se a ela, Peri ficou triste e vexado.
— Mãe!... exclamou ele.
— Vem! disse a índia seguindo pela mata.
— Não!
— Nós partimos.
— Peri fica.
A índia fitou em seu filho um olhar de profunda admiração.
— Teus irmãos partem!
O selvagem não respondeu.
— Tua mãe parte!
O mesmo silêncio.
— Teu campo te espera!
— Peri fica, mãe! disse ele com a voz comovida.
— Por quê?
— A senhora mandou.
A pobre mãe recebeu esta palavra como uma sentença irrevogável; sabia do império que exercia sobre a alma de Peri a imagem de Nossa Senhora, que ele tinha visto no meio de um combate e havia personificado em Cecília.
Sentiu que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha sido o orgulho de sua mocidade. Uma lágrima deslizou pela sua face cor de cobre.
— Mãe, toma o arco de Peri; enterra junto dos ossos de seu pai: e queima a cabana de Ararê.
— Não; se algum dia Peri voltar, achará a cabana de seu pai, e sua mãe para amá-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flores leve o filho de Ararê ao campo onde nasceu. Peri abanou a cabeça com tristeza:
— Peri não voltará!
Sua mãe fez um gesto de espanto e desespero.
— O fruto que cai da árvore, não torna mais a ela; a folha que se despega do ramo, murcha, seca e morre; o vento a leva. Peri é a folha; tu és a árvore, mãe. Peri não voltará ao teu seio.
— A virgem branca salvou tua mãe; devia deixá-la morrer, para não lhe roubar seu filho. Uma mãe sem seu filho é uma terra sem água; queima e mata tudo que se chega a ela.
Estas palavras foram acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.
— Mãe, não ofende a senhora; Peri morreria, e na última hora não se lembraria de ti. Os dois ficaram algum tempo em silêncio.
— Tua mãe fica! disse a índia com um acento de resolução.
— E quem será a mãe da tribo? Quem guardará a cabana de Peri? Quem contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes? Quem dirá quantas vezes a nação Goitacá levou o fogo à taba dos brancos e venceu os homens do raio? Quem há de preparar os vinhos e as bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos?
Peri preferiu estas palavras com a exaltação, que despertavam nele as reminiscências de sua vida selvagem; a índia ficou pensativa e respondeu:
— Tua mãe volta; vai te esperar na porta da cabana, à sombra do jambeiro; se a flor do jambo vier sem Peri, tua mãe não verá os frutos da árvore.
A índia pousou as mãos sobre os ombros de seu filho, e encostou a fronte na fronte dele; durante um momento as lágrimas que saltavam dos olhos de ambos, se confundiram.
Depois ela afastou-se lentamente; Peri seguiu-a com os olhos ate que desapareceu na floresta; esteve a correr, chamá-la e partir com ela. Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecília que falava com seu pai; ficou.
Nessa mesma noite construirá aquela pequena cabana que se via na ponta do rochedo, e que ia ser o seu mundo.
Passaram três meses.
Cecília que um momento conseguira vencer a repugnância que sentia pelo selvagem, quando lhe ordenara que ficasse, não se lembrou da ingratidão que cometia e não disfarçou mais a sua antipatia.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.