Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– O senhor se está aí rindo porque se persuade que sempre que estivermos juntos, haverá um senhor para mandar, e uma escrava para obedecer, não é isso?...

– Talvez.

– Sim... talvez ainda por algum tempo, mas um dia...

Aí se interrompeu Mariana, e encarando de perto Salustiano, prosseguiu:

– Qual é porém a razão por que as portas desta casa se hão de fechar a esse mancebo?... tem o senhor concebido algum projeto, diante do qual se levante ele?... que projeto é o seu, portanto? creio que ainda me assiste o direito de fazer tais perguntas.

– E eu tenho a certeza de que não preciso descobrir o alvo a que atiro, para ser satisfeito no que pretendo.

– Ah! senhor! isso é já demais.

– Estou falando, senhora, na suposição tristíssima de que nenhum de nós tem pejo, e somos como dois sicários que tratam de um crime.

– Oh! pois bem, exclamou com violência Mariana; vamos ao fim: pensa que não vejo o que se passa diante de meus olhos?... quer que lhe trace o painel de seu comportamento para comigo, e que lhe exponha seus últimos projetos?... ouça pois.

Salustiano descansou uma perna sobre a outra com inaudito sangue frio, e disse:

– Ouvirei, senhora; note porém que se vai fazendo tarde.

Mariana começou.

– Um acaso funesto, um acontecimento talvez determinado por Deus, para castigo de um crime que eu cometi, depôs em suas mãos um documento que prova esse crime. Quando eu soube que semelhante documento existia em seu poder, foi no meio de uma festa, no seio dos prazeres, dos quais o senhor mesmo me foi arrancar dizendo-me – és minha escrava!... – Oh! eu tremi realmente! e vejo bem que tinha razão de tremer: tremi, porque desde então havia no mundo um homem que possuía o meu fatal segredo; tremi, mas nunca pensei que esse homem abusasse tanto, e de maneira tão indigna, de uma pobre mulher sem defesa.

– Vai-se fazendo tarde, senhora, repetiu Salustiano.

– Senhor, senhor; já se não lembra acaso do que conosco se passou nos primeiros tempos de nosso desgraçado conhecimento?... lá nessas sociedades que foram o meu delírio, a minha fascinação; lá nessas assembléias eu me supunha admirada e querida; porque, confessarei tudo, tenho ainda hoje orgulho de ser bela; lá mesmo foi o senhor perturbar meus inocentes gozos; lá ostentou diante de seus amigos que merecia um amor que eu lhe não tinha, que eu lhe não podia dar; lá ostentou ter subjugado, ter conquistado o coração da mulher casada; e eu que observava isso, eu que sentia como as mulheres murmuravam contra mim, e os homens pareciam ter piedade de meu marido; eu que via o monstro da calúnia erguer-se contra minha fama de esposa fiel; eu... eu sorria ou corava, à vista de todos, quando o senhor se aproximava de mim ou me oferecia o braço convidandome para um passeio; porque, enfim, eu era sua escrava!... Em resultado o senhor era um homem infame e eu uma mulher covarde.

– Vai-se fazendo tarde, senhora, tornou Salustiano.

– Não havia, não podia haver amor entre nós. Desde o primeiro dia em que nos encontramos, eu o aborreci, e o senhor nunca chegou a amar-me. Por que, pois, fazia crer a seus companheiros de devassidão, de orgias, e de calúnias, que eu era pouco fiel a meu esposo e sensível ao seu amor?... não sabe por quê?... o senhor era um homem infame! e eu por que não sabia vencer minha tão grande fraqueza?... por que não mostrava ao mundo, a meu marido, a todos, o homem indigno que zombava de mim e trazia em torturas a minha vida?... eu já disse a razão ainda há pouco:

porque eu era uma mulher covarde.

– Lembre-se que é tarde, senhora!

– E agora?... sabe o que se está passando entre nós?... persuade-se de que eu não tenho já adivinhado a razão por que se atreve a exigir que seja expulso desta casa um nobre mancebo, que tem sabido merecer nossa amizade!... escute: há uma menina que é bela, bela com todo o esplendor e viço da mocidade; bela ainda mais por sua modéstia, e suas virtudes; uma menina cujo nome o povo abençoa, e que todos como que de ajuste a julgam encantadora. É um coração virgem; e perturbar a tranqüilidade desse coração, ganhá-lo com sua linda inocência, é uma conquista que deve encher de orgulho a qualquer desses moços fátuos e sem moral, que desonram a época em que vivem, fazendo glória da desventura das mulheres. Pois bem: o senhor tem lançado os olhos sobre essa menina, que é minha sobrinha.

– É verdade! exclamou Salustiano; eu a amo!

– Amá-la! oh! não, senhor; não desdoure assim o mais nobre dos sentimentos humanos... um homem vil não ama.

– Senhora!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4445464748...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →