Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Pois não, Sr. Brás, de todo o coração...
A menina pegou na bala com a ponta dos dedos... puxaram, puxaram e o papel rompeu-se sem estalar.
— Chocha!... exclamaram as moças rindo às gargalhadas.
Ora, uma bala de estalo que sai chocha, é uma coisa horrível para o gamenho; Brásmimoso ficou espantado, como se nunca dantes lhe houvera sucedido tal, a ele o non plus ultra estala balas!
— Uma outra, minha senhora...
— Nada... respondeu a moça; a primeira saiu chocha, não quero mais.
— Então Sr.ª D. Emília...
— Vamos... eu gosto muito de estalar balas com o senhor... bem, puxe!
— Chocha!... exclamaram de novo as seis caçoístas...
— É que eu não compreendo isto! disse Brás-mimoso, só se as senhoras não seguram na bala, como manda a arte...
— Não senhor, não senhor... nós puxamos direito; é porque o senhor não nos estima...
— Oh! minhas senhoras...
— Puxe comigo, Sr. Brás, disse a terceira moça.
— Prontamente, Sr.ª D. Camila.
— Olhe... eu pego bem junto da bala... puxe!
— Chocha!...
— Ora, vocês estão mangando com o Sr. Brás, disse a quarta moça; querem ver como estala?... vamos comigo, Sr. Brás.
Brás-mimoso, pálido e desfigurado estendeu a mão a D. Rosaura... era a quarta bala que pretendia estalar... puxou...
— Chocha! gritaram pela quarta vez as moças.
Brás-mimoso estava mesmo a ponto de chorar de vergonha; parecia-lhe que toda a sociedade tinha os olhos fitos sobre ele... e ele desmentia o conceito que tanto se gabava de merecer!
— Puxe comigo, Sr. Brás, disse D. Leocádia, puxe...
— Ei-la aí, murmurou o pobre do homem quase gemendo.
— Chocha!...
Aquele grito — chocha — soava terrivelmente aos ouvidos do presumido velho, como poderia aparecer ainda nas assembléias, ele, o gamenho por excelência, se em seus dedos haviam consecutivamente falhado cinco balas?! Brás-mimoso estava ouvindo a cada passo esse grito fatal, grito de maldição — chocha!... Foi trêmulo e fora de si, que automaticamente estendeu a última bala à sexta senhora.
D. Felícia teve piedade dele.
— Oh!... exclamou Brás-mimoso, ouvindo o estalo, que trovão argentino!...
As moças desataram-se a rir; com as risadas caiu o ramo de cravos a Felícia; Brásmimoso imediatamente o apanhou, e, beijando-o, lho entregou; mas quase ao mesmo tempo escapou o leque da mão de Rosaura; o infeliz homem quando o levantou, abaixou-se de novo para dar a Leocádia o lenço que lhe caíra; porém no mesmo momento tombaram os leques de Adelaide e Emília, e Brás-mimoso, que os ergueu, viu que de novo caíra o pendão de cravos de Felícia, e, ao apanhá-lo, esteve a ponto de pisar nas luvas de Camila.
Finalmente, apiedadas do infeliz homem, as moças puseram termo a seu martírio, e para consolá-lo cada uma lhe deu uma flor, e lhe disse, sorrindo docemente, o competente significado. Brás-mimoso, suando por todos os poros de seu corpo, recebeu as flores com entusiasmo e, orgulhoso, atravessou a sala com elas no peito.
— Ande lá, Sr. Brás, disse um moço, ao vê-lo passar, o senhor é o querido das moças; mas trabalha!...
— Meu amigo, respondeu seriamente Brás-mimoso, sem trabalho não se conquista! E saiu da sala para concertar-se; porque, graças às muitas vezes que se havia curvado para apanhar os objetos caídos, tinha ficado sem dois botões de sua esticada calça.
No entanto, Honorina e Raquel, alguns momentos depois de haverem tomado chá, tinham-se levantado e passeavam juntas. Apenas deixaram suas cadeiras, um elegante jovem correu para elas:
— V. Ex.as, perguntou ele, estimariam honrar o braço de um cavalheiro?...
— Oh! foi Raquel quem respondeu, nós nos levantamos para conversar juntas e em liberdade; mas, se V. S.ª se interessa por passear conosco, nós teremos prazer em agradar-lhe...
— Minha senhora... grande seria para mim a honra; mas o interesse de meu coração deve ser sacrificado aos desejos de V. Ex.as... eu as deixo em liberdade.
— Este moço é muito civil, disse Honorina continuando a passear com sua amiga.
— Sim, Honorina, contam-se poucos homens que, como ele, deixem de ser importunos. — Certamente; tenho notado em todos uma urbanidade tão estudada, cumprimentos tão exagerados, palavras tão escolhidas, comparações tão multiplicadas, que...
— Que parece que já as trazem de casa, não é assim?... pois até aí nada há de novo; alguns são ainda suportáveis pela variedade de suas cortesias; mas uma grande parte, Honorina, diz-nos hoje, o que nos está a dizer há cinco ou seis saraus passados; diz-me agora o mesmo, o que já te disse e o que já havia dito as todas as moças com quem tem conversado durante a noite. São cortesãos a machado... belas casacas de fidalgo, cobrindo corpos de rústicos aldeões...
— Raquel, tu falas tão alto...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.