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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Chegaram as travessas da pescada entre rimas de cebolas e ovos. Abriram-se os buchos, e fecharam-se as consciências destes membros do tribunal de honra onde Ângela foi condenada à infâmia e à pobreza.

Fartos até ao arroto, de coletes desabotoados, saíram os três acionistas mais grados dos bancos portuenses a beber o ar balsâmico do jardim de São Lázaro. Nada, absolutamente nada, estremava aqueles três da classe dos homens de bem, porque a lei, que mandava abrir com ferro quente um ferrete na testa dos ladrões, foi derrogada em 7 de fevereiro de 1523.

XXIV A OPINIAO PÚBLICA

A opinião dos três capitalistas dignamente acatados no anterior capítulo frisava com a opinião geral da sociedade portuense sobre o casamento de Ângela com o cirurgião Costa. As segundas núpcias tinham evidenciado o crime das primeiras. A infâmia de Ângela era indelével, e já pode ser que mais repulsiva, desde que ela afrontou a moral, passando em frente dos amigos de Fialho pelo braço do amante que causara a morte do honrado brasileiro, dizia a maiata, e Francisca Ruiva, e outras Ruivas, que me estão pedindo crônica. E hão de tê-la. A cortesia não se exercita somente com as senhoras honestas.

Francisco José da Costa leu a opinião pública no volver de olhos dos magotes que se arrebanhavam nas praças, e no petulante encarar das mães, que segredavam às filhas a desmoralização da mulher de Fialho. O cirurgião era alvo da injúria, cuspida nas costas, por seus próprios colegas. Era simples o libelo infamatório: acusavam-no de se ter formado à custa dos brilhante de um brasileiro, roubados por sua mulher.

Ângela encontrou um dia numa algibeira de casaco uma recente carta anônima em que um amigo aconselhava a seu marido que saísse do Porto, se precisava de viver pela arte. E ajuntava ao conselho a causa promotora de tão amigável aviso: É odioso na sociedade o homem que se habilitou para entrar nela com o dinheiro de uma senhora casada. E, se esta senhora roubou, desonrou e matou o marido... mil vezes horrendíssimo!

Ângela da Costa leu e chorou. Depois argüiu-se de fraca, e desmerecedora dos bens com que Deus lhe apremiara a sua paciência nas injúrias.

Guardou a carta, e assim que o marido recolheu, foi para ele risonha, e disse em tom de queixume:

― Por que me não mostraste logo esta carta, meu filho?

― Ah! – acudiu Francisco – Tinha tenção de mostrar-te; mas esqueceu-me a carta e o intento. É o que foi. Mas olha, Ângela, este esquecimento não argüi insensibilidade, nem uma coisa impropriamente chamada cinismo. Sabes o que é? Conformidade, tolerância, e quase uma desculpa à opinião pública.

― Desculpa!... – interrompeu Ângela.

― Sim, filha. Porventura, tu já te justificaste? E eu já me justifiquei? Não. A sociedade sabia que uma mulher casada vendeu uns brilhantes; que o marido dessa mulher a expulsou; que esse marido morreu; que um homem, seis meses depois, aparece casado com a viúva do roubado, do assassinado a punhaladas de desonra... Que queres, Ângela? Quem ousará defender-nos?

― Mas faz tu pública essa paga assinada por...

― Deus me livre, minha louca. A quitação foi escrita e assinada para que soubesses que não devias nada a teu marido, e que a roubada em tuas jóias tinhas sido tu. Satisfações à sociedade? São justas, quando ela não condena antes de ouvir os réus, quando não escarra nas faces das vítimas, antes de examinar os vincos por onde passaram as lágrimas. A nossa causa de moral pública está perdida; não obstante, a reabilitação davam-ta os juizes, se houvesses herdado os duzentos contos de Fialho. Os que me denigrem o caráter, se eu a esta hora fosse o marido da viúva com duzentos contos, chamando-me “tratante feliz”, sentar-se-iam lisonjeados nos coxins das minhas cadeiras, e pediriam aos meus lacaios, com urbanidade, o favor de me entregarem os seus bilhetes de visita. Mas, filha, esta soledade que mora à volta de nós é o cordão com que a mão da Providência abaliza a felicidade de duas almas que não podem corar uma da outra. Quando eu desejar mais do que tenho, quando invejar felicidades que não sei imaginar, Ângela, hei de pedir-te perdão de ter sido o mais vil dos teus inimigos.

Apertou-o Ângela com arrebatamento nos braços, e murmurou:

― Se tu quisesses...

― O quê, minha filha?

― Viver numa aldeia, entre umas serras, sozinho com a nossa Joana, esquecidos, e tão amados...

― Sim, quero, minha providência... Adivinhaste a minha aspiração de não sei quantos anos...

― Eu sei, meu amor. Li-a nos teus livros, e que fantasias eu criava para completar as tuas!... Se eu tivesse filhos, e lhes pudesse incutir a certeza de que todo o seu futuro e mundo era o espaço contido nos horizontes das nossas montanhas...

(continua...)

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