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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Interessei-me por tão variado teatro e foi com agrado que em certa noite, muito próxima destas duas últimas, aceitei um convite para ir ao "Mussuah Theatre". Lá dei com uma outra dama, em fraldas de camisa, fumando e cantando, sob a direção da batuta do maestro:

Eu hei de saber

Quem foi aquela

A dizer ali em frente

Que eu chupava

Charuto de canela.

Risos, palmas, pratos, chocalhos, bombos; a música iniciava alguns compassos, e a dama remexia bem os quadris. Tratava-se da revista "Está pra tudo".

Assim, fui a três ou quatro teatros e sempre dei com uma dama a cantar esta cousa tão linda:

Eu hei de saber etc., etc., etc.

Sobre os literatos

— Quantas cartas tens aí! disse-lhe eu ao vê-lo abrir a carteira para tirar uma nota com que pagasse a despesa.

— São "pistolões".

— Pra tanta gente?

— Sim; para os críticos dos jornais e das revistas. Não sabes que vou publicar um livro?

Sobre os jornais

Novidades telegráficas sensacionais:

"Cocos, 2 — Foi aposentado o Primeiro Escriturário da Intendência

F. (A, A.), Correio Vespertino, de 3-6-07."

"Caranguejos, 22 — Os padres maristas comemoraram ontem com grandes festas o centenário da fundação da respectiva ordem (J. C., ed. t., de 22-6-17)."

"Guarabariha, 22 — Foi desligado do quadro da administração dos Correios daqui o praticante de segunda classe Virgílio César, por ter sido removido para os Correios de Santa Catarina.

— Chegaram a esta capital os doutores Ascendino Cunha e Guilherme

Silveira (J.C., ed. t., de 22-6-17)."

Erudição

"Costumava Tito Lívio dizer que tinha ganho o seu dia sempre que lhe era dado realizar um benefício." (Correio Matutino, de 2-11-13).

Tito Lívio foi imperador?

"E é o motivo dessa antecipação que está sendo explicado, agora, nos jornais da Fortaleza, pelos entendidos na matéria, um dos quais acusa como razão desse desequilíbrio a abertura do canal de Panamá, que pôs em contato duas grandes massas d'água de nível diferente." (O Himparcial, de 12-11-15).

A que fica reduzida a tal história do equilíbrio dos líquidos em vasos comunicantes? Pobre Ganot, quer o grande quer o pequeno! Sobre a administração

"A extração deste combustível na América do Sul se eleva, contudo, a mais de 1.500.000 toneladas, produzindo o México 500.000 toneladas e o Chile o restante" (Relatório oficial sobre — A Indústria Siderúrgica no Mundo, pelo general

F. M. de S. A., pág. 198)

O México na América do Sul? Que terremoto!

Coisas maravilhosas de um tradutor burocrático:

1.o) arbustos de serra (arbrisseaux de serre)

2.o) bilhetes de bilhar (billes de billard)

3.o) Tecidos de... cânhamo ou de ramia (ramie)

4.o) fetos de serra (fougères de serre)

5.o) berloques, colorados... (breloques, coloriées),

Todas estas e muitas outras lindezas semelhantes vieram publicadas no D.O. da Bruzundanga, em 23 de março de 1917: e o ato era assinado pelo grande Ministro — Kallokeras.

"A seleção nas repartições é feita inversamente de forma que os empregados mais graduados são os mais néscios e inscientes. Houve quem propusesse para corrigir tal defeito que se mudasse a hierarquia burocrática: o cargo de diretor passava a ser o primeiro da escala e o de praticante, o último."

No gabinete do ministro

— O senhor quer ser diretor do Serviço Geológico da Bruzundanga? pergunta o Ministro.

— Quero, Excelência.

— Onde estudou geologia?

— Nunca estudei, mas sei o que é vulcão.

— Que é?

— Chama-se vulcão a montanha que, de uma abertura, em geral no cimo, jorra turbilhões de fogo e substâncias em fusão.

— Bem. O senhor será nomeado.

Pancome, quando se deu uma vaga de amanuense na sua secretaria de Estado, de acordo com o seu critério não abriu concurso, como era de lei, e esperou o acaso para preenchê-la convenientemente.

Houve um rapaz que, julgando que o poderoso Visconde queria um amanuense chic e lindo, supondo-se ser tudo isso, requereu o lugar, juntando os seus retratos, tanto de perfil como de frente. Pancome fê-lo vir à sua presença. Olhou o rapaz e disse:

— Sabe sorrir?

— Sei, Excelentíssimo Senhor Ministro.

— Então mostre.

Pancome ficou contente e indagou ainda:

— Sabe cumprimentar?

— Sei, Senhor Visconde.

— Então, cumprimente ali o Major Marmeleiro.

Este major era o seu secretário e estava sentado, em outra mesa, ao lado da do Ministro, todo ele embrulhado em uma vasta sobrecasaca.

O rapaz não se fez de rogado e cumprimentou o major com todos os "ff" e "rr" diplomáticos.

O Visconde ficou contente e perguntou ainda:

— Sabe dançar?

— Sei. Excelentíssimo Senhor Visconde.

— Dance.

— Sem música?

O visconde não se atrapalhou. Determinou ao secretário:

(continua...)

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