Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Nas mais das vezes, como acontecia com Campelo, o candidato não podia garantir coisa alguma, sobretudo quanto ao júri. É verdade que muitos são ali prisioneiros políticos deste ou daquele, mas não é tão difícil juntá-los em conselho que essa proteção é mais uma burla com que os candidatos incitam os seus apaniguados a desordens e assassinatos, esperançados com a impunidade.

Totonho era encarregado de várias casas de cômodos e estalagens; e, na pobreza dos seus inquilinos e nas suas necessidades, arrepanhava eleitores, “fósforos” e desordeiros úteis.

Campelo juntara-se-lhe desde muito e Totonho punha muita esperança na estrela do doutor. De resto, este era delicado, acessível, apertava a mão de toda a gente, vestia-se bem, supondo-se até bonito; e com tantas qualidades não podia deixar de ir longe.

Foi logo um dos primeiros admiradores de Bentes, organizou banquetes a todos os seus parentes e não houve metáfora mais ou menos de “haras” que ele não empregasse para demonstrar de que modo a hereditariedade pesava na família.

Fora Totonho, por intermédio Campelo, quem pusera Lucrécio na polícia; e a Bogoloff, com quem almoçava naquela manhã, o novo policial lembrou:

— Doutor, por que não procura o Xandu?

Lucrécio não sentia absolutamente pesada a hospedagem do russo; queria, porém, que a sua educação e instrução tivessem outro âmbito. Respeitava o saber do moscovita e sentia a sua alvura e os seus cabelos louros deslocados ali.

Tinha Bogoloff tenção de fazê-lo mas, ainda muito russo, não supunha que o ministro o atendesse sem mais recomendações. Respondeu com grande convicção que iria. Lucrécio explicou:

— Doutor, não é que o senhor me incomode; mas a época está de aproveitar. Vamos ter uns anos cheios... Uma coisa, Doutor?

— Que é?

— O senhor não entende de medicina?

— Não. Por quê?

— Por nada... É que tenho um serviço de medicina para umas eleições.

— Mas... Que tem as eleições com a medicina?

— É um caso.

— Conta lá.

— O fato é o seguinte: o coronel Liberato, lá do Cambuci, tem que vencer umas eleições, mas os “outros” têm mais votos. Ele precisa fazer um estouro e um doutor era bom para socorrer a gente dele. Ele paga.

— Quanto?

— Um conto de réis. Quer ir?

— Não. Não sou médico, mas se fosse, não iria. Não quero essas atrapalhações...

— Qual atrapalhações, Doutor! Nossa gente está de cima... Se houver morte, ferimento, o processo fica abafado...

A mulher, que ouvira, falou da cozinha:

— Lucrécio, você não toma juízo. Fala assim de morte, como se fosse Nosso Senhor... Agora piores do que vocês, são esses graúdos que dão costas quentes a vocês...

— Qual, mulher, isto é política, um ajuda o outro. Não acha, Doutor?

— É... é... deve ser mesmo política.

— Você vai mesmo atrás da política, que um dia eles te deixam lá na “chácara”... Já disse... Não quero que você meta o Lúcio nessas coisas.

— Você já viu — disse Lucrécio — eu dar mau conselho ao pequeno?

Doutor, na sua terra é assim?

— Bem, assim não é; mas...

— Qual! Todas as terras são iguais.

Seria difícil a Bogoloff explicar ao amigo as diferenças e as semelhanças existentes entre o mecanismo político da Rússia e o do Brasil; uma diferença, porém, logo notou naquela procura de um médico para pleitear eleições de vereadores. Só o mandonismo republicano com a sua concepção estupidamente cruel da política, é que podia lembrar-se de transformar comícios eleitorais em emboscadas de salteadores, com um médico entre eles. Curiosa piedade!

Absteve-se o russo de fazer qualquer consideração e, acompanhado de Lucrécio, encaminhou-se para o centro da cidade.



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4445464748...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →