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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Chegou, afinal, o grande dia, e tudo correu às mil maravilhas, até à hora em que os noivos fugiram para a independência feliz do seu pavilhãozinho cor­de­rosa. E viu já o leitor, pelo segundo capítulo, todas as desgraças que então se sucederam. Pois bem; vamos agora encontrar de novo os nosso pobres heróis na crítica situação em que os deixamos.

Gaspar, como vimos, fora surpreendido pelo comendador na ocasião em que socorria Ambrosina, e declarou, apesar de enxotado pelo dono da casa, que ficava no seu posto de médico; Gabriel fora recolhido a um quarto, e o noivo, tão violentamente atacado de insânia, teve de resignar­se a ser encerrado no porão da chácara.

Quem imaginaria que o homem, para quem se faziam todos aqueles deslumbramentos, havia de ser encurralado no pior lugar da casa?...

Depois de tais cenas, tudo se converteu em sobressalto e desordem. O comendador compreendeu que não dispunha de outro médico, e consentiu que Gaspar tratasse da filha; esta, porém, não queria voltar a si do tremendo abalo nervoso que a prostrara.

Da gente quedada para passar a noite na chácara, muitas pessoas desapareceram com a catástrofe e outras se achavam chumbadas à cama pelo vinho. Melo Rosa e o Rêgo eram dos últimos. Além de muito cansados, havia neles, para os inutilizar de vez, uma formidável carga de champanha.

Gaspar medicou o enteado, e voltou a cuidar de Ambrosina, cujo desfalecimento principiava a sobressaltá­lo. O comendador e a mulher encostaram­se, a chorar, no quarto da filha e esperaram pelo dia.

Ambrosina, estendida na cama, parecia morta.

Gabriel ficara só; às cinco horas da manhã, abrira os olhos e percorrera­os com um ar infeliz e resignado pelo quarto, como um ferido à espera da ambulância.

Entretanto, por detrás do seu leito, sem ser vista e sem ser ouvida, uma doce amiga lhe velava o sono, e parecia resguardá­lo com um véu de amor e de piedade.

Era Eugênia.

Leonardo havia enlouquecido totalmente, e só com muita dificuldade conseguiram alimentá­lo.

De um moço bonito e elegante que era, estava um monstro. Tinha os olhos espantados e vermelhos, o cabelo hirsuto, a boca feroz. Não admitia nenhuma roupa no corpo e passeava a quatro pés na sua prisão, soltando uivos plangentes ou bramidos de fúria.

E assim se passaram dois dias tristes e aborrecidos. Havia por toda a casa o constrangimento da desgraça. Ninguém se animava a rir e conversar livremente; ouviam­se gemidos e suspiros dolorosos, e de vez em quando os berros de Leonardo. Andavam todos espantados.

Gaspar declarou que o louco não podia ficar ali:

Ambrosina, se chegasse a ouvir aqueles berros, havia de piorar e talvez viesse a enlouquecer também. Leonardo foi com grande trabalho, conduzido para uma casa de saúde no bairro de Laranjeiras.

Gabriel convalescia à sombra dos desvelos de Eugênia.

Alguns dias depois, o médico procurou o comendador para dizer­lhe que se retirava; a sua doente estava livre de perigo, e Gabriel já podia partir.

O comendador ouviu­o com ar comovido e cheio de humildade. Súbita mudança havia ultimamente se operado nele; agora, ao contrário, parecia muitas vezes empenhado em praticar ações que o reabilitassem.

— Compreendo, disse ele a Gaspar, que o senhor esteja agastado comigo. Tem razão... Fui grosseiro e mal reconhecido aos seus serviços; peço­lhe, porém, que me perdoe e que se não vá embora por enquanto... Trate ainda minha filha, e só se despeça quando a pobre menina voltar de todo à sua primitiva saúde... Ah! se o senhor soubesse quanto tenho sofrido nestes últimos dias... teria compaixão de mim...

Gaspar cedeu afinal, mas declarou logo que não se separaria de Gabriel.

— Ó senhores! respondeu o comendador, já reanimado. Ele ficará conosco. Longe de incomodar­nos, nisso nos dará o maior prazer... Creia­me que falo neste instante com toda a sinceridade!...

Ficaram.

Ambrosina volvia­se garrida e sã com os hábeis cuidados de Gaspar. Este quase lhe não abandonara a cabeceira até conseguir levantá­la da moléstia. Daí uma certa intimidade muito respeitosa entre os dois. A doente só o tratava por "Meu salvador", e lhe sorria afetuosamente.

Uma ocasião, pediu­lhe ela licença para lhe dar um beijo na testa. Gaspar consentiu sorrindo, com um gesto paternal.

— Olhe! disse­lhe a bela moça; desejo que o senhor seja muito meu amigo... Não calcula o respeito que me inspira a sua tristeza; pressinto por detrás dela alguma penosa recordação de amor...

Gaspar fez­se mais pálido e sombrio.

— Peço­lhe que me conte a história. Tenho até hoje ouvido falar tanto do Médico Misterioso!... Conte­ma. Suplico­lhe!

— Não. Far­lhe­ia mal...

— Porém, quando me não fizer mal... promete?...

— Está bom, prometo, mas não se preocupe com isso...

E o médico recaiu na sua habitual serenidade. Ambrosina ficou a olhar longamente para aquela fronte pálida e despojada como se interrogasse o mármore de um sepulcro.

(continua...)

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