Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Terminou-se assim o grave e delicado negocio do reconhecimento de Rozaura como livre de nascimento, com aprazimento de todos, Sómente Moraes, apezar de reconhecer a justica e indeclinavel necessidade daquelle acto, sentia-se com razão humilhado e abatido sob o peso de sua nova situação. A revelação que acabava de ouvir, confirmada por um modo irrefragavel, de ter elle desposado como pura uma mulher maculada por uma primeira falta, o acabrunhava. Si já os encantos de Rozaura ião extinguindo em seu coração o amor conjugal, dahi em diante jamais poderia conservar para com ella a mesma affeição e estima, que até alli lhe votava, mas desprezo e aversão.

Não se pôde negar que assistia-lhe bastante razão. Os zelos não se limitão sómente aos cuidados do presente e aos receios do futuro ; estendem-se tambem pelo passado e tornão-se retrospectivos. Com effeito deve ser bem doloroso para o coração de um marido, que tern vivido largos annos na doce persuasão de que fora elle objecto do primeiro e unico amor de sua esposa, saber que esta já tivéra outro affecto talvez mais extremoso e ardente do que aquelle que lhe consagrava, embora mesmo não fosse acompanhado das fataes consequencias, q le teve o de Adelaide. Ainda si o objecto dessa primeira paixão já não existisse, ou pelo menos a distancia ou novos laços de amor tornassem provavel a completa extincção de seu primeiro affeito, o espirito de Moraes poderia tranquillisar-se algum tanto. Mas Conrado estando alli vivo, morando na mesma cidade, solteiro, com o coração completamente livre e isento, moço elegante, rico e rodeado, a situação de Moraes não era das mais invejaveis.

Por outro lado, a perda de Rozaura por quem tinha concebido uma dessas paixões sensuaes e infrenes, que quasi não se pódem explicar, o enchia de despeito, raiva e ciume. Rozaura livre e debaixo do dominio de Conrado ficava inteiramente fóra do alcance de seus libidonosos desejos, e formosa, rica e cheia de attraetivos como era, não tardaria a encontrar algum amante feliz que a desposasse ; esta idéa, por mais que elle se esforçasse por arrancal-a, se lhe agarrava teimosa ao coração como farpa envenenada.

Para Adelaide tambem esta nova phase de sua existencia apresentava duas faces bem differentes ; uma risonha e feliz, cheia de suaves expansões de ternura e alegria ; outra porém carregada de sombrios matizes, entenebrecida de crueis angustias e pungentes inquietações. O tempo havia mitigado, mas não extinguido, o vivo pezar, antes remorso que a cruciava, quando se lembrava da filhinha, fructo de seu primeiro amor, exposta e fallecida no mesmo dia em que nascera. Quando essa cruel recordação lhe preoccupava o espirito, acudião-lhe as lagrimas aos olhos, accusava-se de mãe desnaturada, maldizia-se e lançava contra si mesma a exprobração de infanticida. Estas crueis recordações, estas amargas reflexões e que transformando seu genio outrora tão alegre, descuidoso, e até mesmo leviana, tinhão communicado ao seu caracter, á sua physionomia e ás suas maneiras esse ar grave e melancolico, que dessa epoca em diante sempre a distinguio.

Comprehende—se, pois, o jubilo intimo que lhe banhava o coração, vendo viva e restituida a seus carinhos a filha, da qual julgava que na terra já nem os ossos existião. Entretanto esse prazer era fortemente contrabalançado pela vergonha e humilhação em que se via collocada perante o pae, e principalmente perante o marido. Do pae estava ella certa de que fôra completo o perdão e nascido de abundancia do coração ; o do marido porém via bem claramente e todos comprehenderão que fôra arra\lcado pela força das circumstancias, A infeliz esposa já presentia que jamais poderia gozar do mesmo gráo de affecto e confiança que até alli merecera do marido, e antevia com tristeza um futuro de desavenças e dissabores, de zelos e desconfianças ; mas estava resignada a acceitar submissa e sem queixume, como expiação de sua falta, o peso de sua nova e triste situação.

Lucinda, a quem Adelaide immediatamente communicára a resultado da conferencia, não cabia. em si de contente ; parecia ter sacudido o peso dos annos, e ria, cantava, e pulava como uma creança. Correo immediatamente para junto de Rozaura, cahio-lhe aos pés, e abraçando-a pelos joelhos, com os olhos arrazados em lagrimas de alegria, chamou-a de — sinhásinha, — de sinhá Rozaura, e de mil outras cousas fagueiras e affectuosas, que puzérão em grande espanto a pobre menina.

— Que quer dizer isto, tia Lucinda ? ! exclamou Rozaura entre atonita e risonha ; — você hoje esta louca... ou ...?

— Não sou sua tia, não, sinhásinha; mecê não é nem nunca foi captiva ; seu pae e sua mãe estão ahi bem, e gente rica.

Eu? ... tenho pae e mãe vivos opa me deixe, tia Lucinda ; você esta caducando.

— Ah eu estou caducando pois sim, escuta cá, menina.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4344454647...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →