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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Rangel de Vasconcelos restaurou no Passeio Público as armas de D. Luís de Vasconcelos que tinham sido arrancadas, fez aparecer igualmente a efígie de D. Pedro III e D. Maria II, conseguiu fazer voltarem a seus competentes lugares a Diana, o Júpiter, o Mercúrio e o Apolo, que dantes figuravam no Passeio e, enfim, apresentou no antigo posto um novo menino útil com o inseparável cágado, e com sua faixa e a sua divisa.

Se este menino é igual ao antigo e saiu mais barato, não sei.

Ao engenheiro Rangel de Vasconcelos deve, pois, a cidade do Rio de Janeiro, além de outros, esse importante serviço. Como, no entanto, ele não teria melhorado o Passeio Público, se o governo não lhe permitisse fazê-lo e não lhe desse ordens para isso, pertence também ao governo de então boa parte da glória que por esses trabalhos e por esse nobre empenho coube a Rangel de Vasconcelos.

Mas, quando um governo realiza uma obra dessas, descansou no sétimo dia, depois de ter nos seis anteriores criado o universo: o governo pode bem descansar no fim de longos meses de trabalho.

E o governo não só descansou como também dormiu a sono solto a respeito do Passeio Público. Dormiu... dormiu... e dormiu. Até que acordou, em 1860.

IV

A administração pública do Brasil tem desde muito provado com a lógica irresistível dos fatos um erro gravíssimo em que se acham incursos todos os gramáticos e lexicógrafos. Porque estes senhores pretendem que amanhã quer dizer no dia seguinte, no dia imediato, e ela em oposição foi e vai constantemente demonstrando que amanhã significa um período indeterminado, que se pode estender por muitos anos, e mesmo algumas vezes até às calendas gregas.

Querem alguns que as honras de tão importante descoberta não pertencem à administração pública, e somente à sonolenta preguiça, que foi quem fez o belo achado em uma hora deleitosa em que dormia nos braços do desmazelo. Mas, ainda protestam outros, dizendo que foram os devedores insolúveis que ensinaram essa lição sublime, que tanto desespera os credores.

Como quer que seja, a significação administrativa que acabei de fazer notar tem infelizmente o defeito de arruinar muitas coisas já feitas, de deixar em meio outras que se deviam acabar, e de esquecer ainda outras que era necessário que se fizessem.

O Passeio Público do Rio de Janeiro é um exemplo tristíssimo desse defeito da significação administrativa dada à palavra amanhã.

Tendo caído em completa deslembrança, o Passeio Público pedia compaixão com a voz suave das brisas que murmuravam com as folhas de suas árvores, bradava socorro com a voz irritada das ondas que rebentavam nas pedras defensivas do seu terraço, e a administração pública respondia sempre amanhã! amanhã! – o que significa um período indeterminado que se pode estender por muitos anos, e mesmo algumas vezes até às calendas gregas.

Está visto que sendo assim, não havia razão de queixa. Não era a administração pública que se descuidava, era o amanhã que não chegava.

Mas em resultado, o descaimento e a ruína do Passeio Público do Rio de Janeiro chegaram a tais proporções nos últimos anos, que a todos surpreendia ver o abandono em que se deixava o único lugar de refrigério público da capital do império.

Esse lamentável e repreensível abandono foi perfeitamente pintado em um ligeiro epigrama que ouvi a um amigo meu que, tendo partido para a Europa em 1852, chegara de volta ao Brasil em 1860.

Passeávamos juntos, eu e o meu amigo, naquele jardim público, alguns dias depois da sua chegada ao Rio de Janeiro.

– Que me dizes do nosso Passeio? – perguntei-lhe.

O meu amigo sorriu e respondeu-me:

– Na véspera da minha viagem para a Europa vim aqui, e vi à entrada do Passeio um gato morto. Estive no velho mundo oito anos, voltei, e hoje encontrei ainda o mesmo gato morto no portão do Passeio.

Com efeito, não podia ser maior o desleixo.

Um dia de chuva era de sobra para ficarem encharcadas muitas ruas do Passeio.

Os maciços estavam cobertos de capim e de ervas ruins, e as árvores de parasitas.

As grades dos jardins achavam-se despedaçadas.

Árvores preciosas e delicadas amesquinhavam-se e iam morrendo abafadas por outras que pouco ou nenhum merecimento tinham.

Dois pequenos tanques octogonais com pilastrinhas de mármore servindo de repuxos, que havia nos primeiros maciços da rua principal, e que não sei em que época foram feitos, estavam, um quase de todo, e o outro completamente aterrados, destruídos e ambos tão escondidos por debaixo de uma vegetação daninha que ninguém deles dava fé.

Os dois outros também pequenos tanques, de cujo seio nascem as pirâmides, mostravam-se cobertos de verde limo e ofereciam um aspecto repugnante.

As belas grades de ferro do terraço, carcomidas pela ferrugem, davam testemunho da incúria da administração pública, que para não gastar com elas alguns mil-réis por ano, deixava assim perder muitas centenas de mil-réis.

A moralidade pública gemia ressentida no interior do jardim.

(continua...)

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