Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Não digo mais palavra sobre ella; creio porém que posso fallar sobre os pais.
— E que tem a dizer a respeito d'el-les ?...
— Pouca causa : digo que se interessão por ti.
— Ah!
— Não houve pergunta que me não fizessem : ficarão sabendo a quanto montou a legitima que
te tocou por morte de teu pai e a herança que te caberá, por morte de tua mãi...
— Meu padrinho !
— Não acharão máo o que eu lhes disse e que foi a pura verdade, mas ficarão menos contentes quando eu os informei de que não podias esperar ser herdeiro de mais parente algum...
— Sempre a mesma idéa!...
— É muito natural; os pais devem pensar no futuro de suas filhas ; e assiste-lhes o direito de ser muito positivos.
— Tem razão.
— E Christina ? que te disse ella?
— Vossa mercê zomba de tudo........
— Não, tomarei este negocio ao serio.
Innocencio contou palavra por palavra tudo quanto se passara entre elle e Christina, e o enthusiasmo com que esta lhe fallára do amor da princeza Eleonora, e do amor desinteressado e santo, unico que ella comprehendia. Ouvindo isso,Geraldo-Risota pareceu fazer um esforço sobre si mesmo, e de repente.começou a assobiar muito desatinadamente uma musica que ninguém seria capaz de dizer o que era.
— Que faz, meu padrinho ? perguntou
Innocencio.
— Assobio, meu afilhado; assobio para não rir
IV.
Foi tão lisonjeiro ou tão animador o acolhimento que Innocencio recebeu dos pais da sua amade, que não deixou mais passar uma única noite sem ir pagar tributos de amor e colher suaves esperanças na chácara feliz onde habitava Christina.
Visitas tão freqüentes poderião oífender certas considerações que sempre se devem respeitar ; mas Innocencio olhava já Christina como sua noiva, e embora ainda não a tivesse pedido formalmente em casamento, já com tanta clareza manifestara as suas intenções a este respeito, a Fagundes e sua esposa, que sem vexame e quasi que com uma presumpção de direito ia todas as noites passar duas ou tres horas ao lado daquella que devia ser em breve a sua companheira de toda vida.
Também de sua parte Fagundes e Carlota recebião sempre com o maior agrado
Innocencio, e Christina nunca se despedia delle que, ao apertar-lhe a mão, não lhe dissesse :
— Até amanhã!
Tudo isso era muito natural e explicavel.
A um namorado não faltão jamais pretextos e nem mesmo razões que lhe parecem muito solidas para freqüentar assidua e até diariamente a casa daquella a quem ama.
Os pais de uma menina que já tocou á idade de casar-se, acolhem sempre com estudado favor o mancebo que se lhes afigura em boas condições de ser um marido extremoso e capaz de fazer a felicidade da filha.
O que porém menos natural poderia parecer, era a incançavel solicitude com que GeraldoRisota mostrava auxiliar os amores e os projectos de casamento de Innocencio.
Geraldo não deixava de acompanhar o afilhado uma só noite á charara de Fagundes, nem de informar-se na volta a respeito do estado das relações dos dous amantes.
Uma vez, Innocencio chegou a agradecer ao padrinho os signaes do vivo interesse que lhe devia.
— Nada de agradecimentos, respondeu Geraldo ; não quero que te enganes comigo; o empenho que tomo em informar-me dos teus amores com Christina, nasce somente do juizo que faço do coração da tua noiva, e da admiração que me causa a sua constancia.
— Já vê, meu padrinho, que lhe cumpre reformar o seu juizo e pedir perdão a Cristina
— Ainda não: deixa primeiro soprar o vento.
— Que vento ?
— Um certo vento que ás vezes faz mudar de rumo a muitos homens, e do mesmo modo a muitas senhoras.
— Meu padrinho ! já lhe pedi.. .
— Mudemos de assumpto.
— É melhor.
— Como vais de esperanças eleitoraes?...
— Nada posso dizer além do que já lhe disse; não tenho recebido carta alguma da provincia. — Máo signal!
— Não : estou perfeitamente tranquillo : a minha eleição é indubitavel.
— E a commissão do governo ?...
— Fui já três vezes procurar o ministro, para entender-me pessoalmente com elle, e não consegui uma só vez fallar-lhe.
— Talvez o procurasses em horas mal escolhidas.
— Por pensar também assim, mudei sempre de hora.
— E sempre infeliz, heim ?
— A primeira vez fui ás onze da manhã: S.
Ex. estava almoçando.
— Bom!
— A segunda fui ás cinco horas da tarde ; S.
Ex. estava jantando.
— Melhor !
— Exasperado ou pelo menos contrariado, á terceira vez fui ás oito da noite, e S. Ex. estava ceiando !...
— Optimo, sempre comendo !
— Não volto mais ao ministro,
— Mas a commissão ?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.