Por José de Alencar (1872)
Erguera, porém, Berta a mão direita, e com o indicador fez ao rebelde um gesto de ameaça, estendendo a unha rosada quase a cravá-la no meio do sobrolho espesso do idiota.
- Diga, senão...
O confrangimento de uma vasca estampou-se na figura do infeliz; mas apesar, os dentes rangiam-lhe de cólera.
- Não sou mais Til! disse a menina lentamente.
Caiu-lhe então aos pés, outra vez humilde e cativo, rojando como um verme, o mísero idiota, de cujo corpo rompia em arquejos e contorções o pranto, que não sabia exprimir como os homens em lágrimas e lamentos.
Acalentou-o Berta, amimando-lhe as faces, e depois que o viu calmo, trouxe-o de novo à reza e o fez recitar a prece interrompida.
“- Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa, Mãe de Jesus e dos aflitos, intercedei por meu tio, minha tia e meus primos; por mim, por Berta e aqueles a quem ela quer bem, e fazei-nos a todos felizes.”
- Vamos à lição! Disse Berta.
Repetiu então o Brás de cor o abecedário e uma parte da carta de sílabas e nomes.
XXV
O idiota
Tirando do balaio uma varinha de peroba em forma de flecha, que lhe servia para esticar o pano, quando tomava o ponto às meias ou cerzia a mais roupa, Berta começou a traçar no chão as letras do alfabeto.
À proporção que Brás acertava com o nome de cada letra, a ia apagando a mestra gentil com a ponta do pé buliçoso e faceiro, para escrever outra e outra até o fim do abecedário, como se costuma nas escolas sobre a ardósia.
O grande esforço, que faz o idiota para decifrar as letras e sílabas, ressalta-lhe do rosto contraído. As feições de ordinário balordas e flácidas, como abandonadas à sua materialidade pela ausência do espírito, as confrange neste momento a tensão violenta do bestunto porfiando romper a rija crosta que o empederniu.
Assim pasmam-se, em uma fixidez espantosa, as pupilas vagas e amortecidas; a belfa caída sempre como a mandíbula de um animal, a arreganhar a boca, dava-lhe uma expressão lorpa; mas agora comprime fortemente o lábio superior, e a ponto que rangem-lhe os dentes e nas ventas sibila o sopro da respiração ofegante.
Às vezes parecia que, extenuado por esse afã, o bronco entendimento do rapaz ia desfalecer e sucumbir; pois perpassava-lhe no semblante uma ânsia repentina e seus olhos apagavam-se, como se a enorme cabeça vacilasse.
Nesses momentos de obliteração, porém, o doce olhar de Berta sustinha aquele espírito titubeante prestes a submergir-se nas trevas. Entrelaçando o rude labor da lição com sorrisos e meiguices, que orvalhavam a alma enferma do mísero idiota, a carinhosa mestra não só incutia-lhe o ânimo de perseverar no insano esforço, como iluminava com um vislumbre de sua alma a densa caligem daquele cérebro granítico.
- Esta letra, Brás!... Não se lembra?... Olhe para mim, olhe bem! O que estou fazendo?...
- Rindo!
- Então que letra é?
- Erre?... dizia o rapaz depois de lenta cogitação.
- Isso mesmo.
Outras vezes, para dirigir o entendimento de Brás e despertar-lhe a embotada reminiscência, contava Berta uma história, imitava o canto de um pássaro, ou inventava um brinquedo que suscitasse a noção esquecida.
Embora já tivesse Brás percorrido quase toda a carta de leitura, de súbito, e não obstante esse adiantamento, faziam-se em seu entendimento profundos eclipses. Dir-seia que apagava-se de todo o morno lampejo da inteligência bruta, e que esse crânio vazado em molde humano descia abaixo de uma caveira suína.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.