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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Depois de alguns escrúpulos mais por parte de Guida, a instâncias de Ricardo, fez-se a troca; e partiu enfim a passeata. 

 

XV 

 

Em uma aberta do mato que borda o caminho, avistaram os passeantes ao longe a barra da Tijuca, ao longo da qual estendia-se o cordão de espuma das vagas, como uma franja de arminho, guarnecendo o manto de cetim do oceano, a embeber o azul do céu. 

Os passeantes saudaram com uma exclamação de prazer o quadro encantador daquela marinha, tocada pelos raios do sol nascente, que aveludava as cores mimosas da palheta americana. 

Com um pouco, dobraram o “Canto da saudade”, e os olhos desafogados do arvoredo que vestia a orla do caminho, se desdobraram ávidos pelos horizontes abertos, recreando-se com a paisagem de várias chácaras, derramadas no vale, ou alteadas pelas assomadas das fronteiras colinas. 

Entre estas notam-se principalmente duas, a do Moke, por ser das residências mais antigas que se estabeleceram nesse aprazível sítio; e a do Dr. Cochrane, arranjada à feição de um modesto parque inglês, o que lhe atraía outrora grande número de visitantes. 

Aqueles dos passeantes, que mais conheciam o prédio por tê-lo percorrido freqüentes vezes, apontavam de longe os vários pontos de recreio: 

- Olhe, lá está o lago! 

- E a ilha! 

- Ali, por aquele caminho vai sair-se na “Cascatinha”. 

- Lá naquele morro é a “Vista do mar”. 

- Como se chama a ilha? 

- Malacoff. 

E outras exclamações. 

Talvez nessa ocasião percorria o escritor destas páginas as bordas do lago sereno, em seu passeio matinal, bem longe de imaginar que teria de referir a comédia, cujas figuras principais passavam ao longe, sem que ele as percebesse. Entre todos os alegres companheiros, só Ricardo mostrava-se reservado, como já era naturalmente fora da intimidade, e ainda mais quando tinha preso o espírito de uma constante preocupação. 

Seu olhar inquieto se repartia entre Guida, que ia perto, mas pouco adiante, e Fábio, que o seguia a pequena distância, do lado oposto. 

Percebendo o desejo de Guida, o moço insistira em satisfazer-lhe inocente capricho, com o oferecimento do “Galgo” para aquele passeio. 

Causava-lhe tão íntimo prazer a circunstância de poder ele, um pobretão, prestar um obséquio no meio daquela sociedade cosida a ouro, que os primeiros receios sobre o animal se desvaneceram com a segurança da gentil amazona. 

A caminho, porém, conheceu Ricardo que embora Guida se mostrasse tão destra, como era elegante cavaleira, todavia o seu pulso delicado, que cerrava o canhão da luva de camurça amarela como a corola de um jacinto a desabrochar, teria o vigor necessário para domar a impetuosidade do generoso corcel? 

E o “Galgo” nessa manhã estava nem de propósito em um de seus momentos de fogo. A presença dos outros animais excitava-lhe os brios generosos; e o ar puro da manhã, que ele hauria às golfadas para lançar das narinas em fumo ardente, parecia repassá-lo da ligeireza e mobilidade do vento. 

Ricardo, sabedor das travessuras e floretas com que nessas ocasiões costumava o “Galgo” divertir-se, e lembrando-se de quanta firmeza de rédea e agilidade carecia para evitar que estes folguedos se transformassem em revoltas sérias e cóleras indomáveis, Ricardo estava em constante sobressalto e arrependido de haver consentido na troca. 

Acompanhando a garbosa inflexão da mão esquerda de Guida, a cada instante passava-lhe prudentes avisos sobre o manejo do animal, advertindo-a dos sestros e modo de os corrigir ou abrandar. Guida ouvia-o com indiferença, quase distraída, e apesar de sua afabilidade com o advogado, bem se conhecia que essa solicitude beliscava-lhe o amorpróprio; pois a moça tinha presunção de ser perfeita cavaleira. 

Não escapava a Ricardo essa contrariedade; mas, ainda com risco de desagradar, não poupava as observações, toda a vez que as julgava necessárias, embora por último já procurasse um disfarce para as dissimular. 

Se tirava os olhos do “Galgo” e da elegante amazona, era para relanceá-los ao lado oposto, onde Fábio brincava com D. Guilhermina. Já no domingo anterior notara a assiduidade do amigo junto à mulher do conselheiro; mas supôs que não passava de um galanteio sem conseqüência. 

O noivo de sua irmã, bem sabia o advogado, era dos tais de coração andejo e buliçoso, que não podem ficar quietos, como crianças que são; mas estão sempre a bisbilhotar quanta boneca lhes cai no goto. E o pior é impedi-los de traquinar, pois são capazes então de estrepolias diabólicas. 

(continua...)

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